fome

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Alaska I
 

 

 

uma fome imensa de ternura... chego a invejar um gato ao colo...
as pessoas são-me tédio, tristeza da sua mesquinhez estúpida, da sua crueldade com as crianças e com os animais..

 

sou um corpo em ferida! sempre em ferida! sou sangue em ebulição... um sangue que não se sacia porque, cada vez mais, sinto impotência de os olhar, falar, tocar...

 

torço-me em espasmos de fera enjaulada.

 

 

Gelo

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Alaska II
 

 

este peso gelado
da solidão,
a presença constante
de um corpo ausente
que quero morder;
afogar-lhe os olhos de lágrimas
de dor e medo
até sentir o sal do seu sangue
na minha língua.

 

vingar num corpo
inocente
de mulher
todas as noites
petrificadas.

 

o corpo parado
o olhar parado
e raiva
tanta.

 

eu só quero chorar
com o despudor
indecente
das mulheres do povo
nos funerais de aldeia.
eu só quero o carinho
meloso
que se dá aos cães,
eu quero um regaço de avó
e uma mão enrugada
moldando-me a cara
em gestos lentos.

 

só quero quebrar este gelo!
o gelo
que envenena o ar
paralisa o sangue e me
morde as entranhas numa acidez de lágrimas
castradas!

 

 

Castradas!

0578SH-36X48.jpgAlaska III
 

 

eu quero a paz
das últimas lágrimas,
da angústia que se
dissolve
na alvorada...
eu quero um sorriso da amiga
emudecendo estes cânticos de
morte.
eu quero voar em vertigem desta prisão
que construí com a raiva tímida
das crianças doentes.
oh! só quebrar este gelo!...

 

eu quero amar com paixão
exorcizando-me o negro
deste sangue maldito
de impotente
impotente!

 

eu quero que esta chuva pare
ou se torne mais forte,
rir-me do passado
rir-me da morte,
fugir para a rua
e vaguear sem norte,
devorar este ar frio
em arquejos de afogado,
mergulhar no silêncio
puro
de uma noite virgem...

 

 

choro

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Alaska IV
 

 

 

esta doce intimidade
com a noite,
o seu silêncio
povoado de sombras e
estrelas.

 

e a aspereza húmida
da areia
e o rumorejar surdo
de um mar tranquilo de inverno.
a suave potência das vagas
penetrando a areia
numa musicalidade
branca
de um respirar líquido...
e as minhas palavras de um
pensamento
mais lento
quase na vertigem
do imóvel,
ganhando a força do
sangue mais fluido,
mais vermelho,
pulsando no mesmo compasso
mágico
do planeta vivo,
esta noite tão viva.

 

há o encantamento sagrado
de um corpo aberto por todos
os poros,
com toda a incrível potência da
vulnerabilidade...

 

e começo a chorar... 

 

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