tribute

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Alaska V
 

 

 

a náusea do poder,
a repulsa do poder
nestes capatazesinhos
patéticos
de opereta.

 

é que eles querem
vingar
o penisinho murcho
de impotentes:
- querem as mulheres de joelhos,
(as mulheres de joelhos com lágrimas de medo)
- querem os filhos doentes
(os filhos doentes pela humilhação)
- querem que lhes chamem doutores
e sabe-se que este é o país mais doutorado da galáxia,
(para executarem a farsa da modéstia amigável)
- querem os paroquianos em coro afinado
olhando para uma sotaina amaricada.
- querem os alunos submissos, tristonhos
pela leitura do triste Eça.

 

enfim, qualquer coisa,
qualquer coisa que os distraia
do glorioso espectáculo
da vida a escapar-lhes
das mãos crispadas,
como se fora
vento.

 

e o cão aninhado em tremuras de
chicote,
o militante do partido
crédulo e disciplinado,
e uma bíblia em cada quarto
entre os frascos de anti depressivos
e a vaselina para a cona ressequida
pelo fastio matrimonial,
e milhões sorrindo imbecis
aclamando um papa senil,
e milhões vociferando hinos cretinos
de guerra: "às armas, às armas!..."
numa comoção mongolóide
de patriotas...

 

e eu olho-os
e ouço a voz triste e
levemente sardónica desse
magnífico americano:
- who are you?
"Those that look carelessly in the faces of
Presidents and governors, as to say
Who are you?
Those of earth-born passion, simple, never
constrain'd, never obedient..."

 

my tribute, Whitman.

 

 

sede

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Glacier Bay
 

   

o orgasmo de plástico
que se desmorona
em absurdo
quando abrimos os olhos:
fica um tecto manchado
com insectos
esmagados.

 

na boca uma sede enorme,
uma sede carnívora
de pele de mulher.

 

 

insónia (excerto)

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Land of the Midnight Sun II
 

 

dia após dia,
choco de frente,
inábil,
com os vossos odiosinhos de
colecção...

 

Sinto-vos poeira e neblina
agredindo-me os olhos e o
sangue.

 

estou doente!
estou doente!
tenho terror de vos conhecer
melhor,
nunca mais conseguir
adormecer...
tenho a dor das insónias
a rasgar-me a cabeça
em guinadas de agulhas,
sinto-me a desintegrar...

 
[...]

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flor no pântano

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Land of the Midnight Sun
 

 

 

 

encontramos, de forma inesperada, uma flor no pântano.
mas a flor no pântano não é, somente, o perfume asfixiado, a angústia
da cor isolada no cinza lodoso..., é, também, o remorso dos insectos e
dos répteis do pântano. a inevitável inveja, a inveja odienta pela
beleza assombrosa, perfumada, estéril... a mancha de cor que lhes
revela o negrume.

 

e a flor, torturadora, ilumina o que nunca fora iluminado, parindo a
dor da revelação de um passado pestilento, do tempo derramado em
águas estagnadas... a revelação da insuportável fealdade que lhes era
tão normal...

 

e eles querem roubar-lhe tudo, a água e a luz e o ar... eles querem
que a flor definhe, se descobre e tombe com a lentidão de uma
renúncia... Não sabem da força imensa de um caule de flor...

 

mas, o erro está na flor, sim, o erro está na flor!
o sítio da flor não é aquele.
o sítio da flor não é esta vida.
a flor não tem sítio!

 

ela vive na dor nocturna.
ela vive na demência drogada dos insones e dos loucos.
ela vive na praia deserta e aí tem a cor da areia.
ela vive na dor muda de algumas mães, assombradas pela morte à
espreita, no corpo dos seus filhos.
ela vive no sorriso de uma avó, acariciando um neto semi-adormecido,
e o seu olhar é uma invocação líquida de protecção
da criança.

 

a flor vive nos olhos da minha amiga.

 

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