
Land of the Midnight Sun IV
a dor de tentar
salvar-me
com o mesmo alfabeto
dos mortos...
esta absurda asfixia
de ser traído
pelas palavras atraídas.

Land of the Midnight Sun IV
a dor de tentar
salvar-me
com o mesmo alfabeto
dos mortos...
esta absurda asfixia
de ser traído
pelas palavras atraídas.

The Yukon River
a raiva
urgente
de vomitar todo o passado
em espasmos
de envenenado!
toda esta raiva
de morder em convulsões:
revirginar os genes,
castrar a morte,
rasgando-lhe todas as máscaras
infinitas.
este voo insano
para trás,
num frenesim de tudo
devassado
até à medula de uma omnisciência
alucinada,
(e a raiva cresce num ritmo de vertigem):
mergulho num passado
desenterrado
das ondulantes areias
de pesadelo
no meu corpo e
nego todas as minhas mentiras,
desfaço todos os nós
à facada,
arrombo todas as paredes
e portas
às cabeçadas sangrentas.
rasgar a dor de uma vida
perdida: não vivida:
profanada com escarros
quotidianos
de morte!
sim! tenho de regressar à
infância rasgada.
e gritar: NÃO!
NÃO!...
tapar os olhos aterrados de criança espancada,
com um manto de cegueira,
tapar os ouvidos violentados
por todas as humilhações,
com tampões de silêncio,
fugir de todos os chicotes que me
fustigaram
dentro e fora,
fora e dentro,
cuspir para sempre
o leite
da infâmia!
oh! só apagar aquele choro
mudo e
seco
em convulsões de
choque...
não! não chega!!
tenho que ir mais atrás!
tenho que regressar ao parto
da puta desta vida e,
com toda a força inteiriçada,
recusar este ar fétido
de enfermaria-morgue
que violou os meus pulmões vazios!...
recusar estas luzes brancas
que me trincaram
os olhos!
recusar partir:
partir para aqui:
esta raiva demente de morrer
segundo a segundo,
facada a facada
de um pesadelo
sem fim.

Land of the Midnight Sun V
o medo dos olhos que
me olham
na rua,
medo do que serei:
não me imagino ninguém
sólido,
só prevejo
terrores na madrugada
baça,
escrevendo urgências
de fuga...
só medo!
medo do tempo
gotejando
gelado,
no meu corpo transido,
pancada a pancada,
de uma noite sem
cor.
tremo em vertigens
de queda livre.
sou medo de tudo!
do sono,
do sonho, da vigília sombria,
medo da vida e da morte,
da noite e do dia,
medo de mim e dos outros,
e desta dor vazia.
nada mais.
sou só isso:
amontoado disforme
de terrores:
fragilidade puída
de moribundo,
farrapo seco
e um vento quente de agosto
está a trazer as chamas
para aqui.