velhas de preto

 

o socorro de vomitar no papel esta angústia, que me envenena o ar e a água, que se confunde com o fel do tabaco, no estômago ressacado, bilioso... esta eterna sensação de enjoo perante as pessoas.

 

eu sou um abismo e sou a vertigem do salto para o mineral, tão relaxante, tão definitivo.

 

sou um mundo de dor, de recusas impostas.

 

eu sou uma fraude viva!

 

eu sou o absurdo de um corpo vivo, pulsando sempre, sempre, merda que é sempre!... ritmos de morte, batidas incertas de um sangue fraco, arrastando-se desgraciosamente, num percurso de escravo com os pés acorrentados...

 

armadilhado nesta mente febril, insone, sempre tão crítica, tão pressurosa em arrancar-me a máscara (mas será que é sempre máscara?) de um sorriso e o esgar mórbido (e será que é sempre um esgar?) do riso que, por vezes, explode em mim e me soa com ecos de sepulcro, matizado de uma histeria suja de lágrimas tantas, tantas, enquistadas em tumores, que me envenenam o sangue e me empestam as vísceras e me endurecem as fezes num descontrolo podre...

 

o cansaço das palavras...neles.

 

oh corpo! dá-me um sono sem infernos de sangue e negro... um sonho de paz, de sol ao entardecer em montanhas floridas, a cair num mergulho doce, que confunda os verdes infinitos num só verde sombreado de laranja-sombra... um sonho encantado pelo cântico rude de velhas de preto que lavam roupa naquele riacho de doce murmúrio...

 

 

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Frígido

 

 

sou um percurso de derrotas encadeadas, cada vez mais forte, mais seguro, mais morto... no entanto, a nostalgia assombra-me! a nostalgia da fragilidade e das suas vitórias sofridas.

 

agora, só um corpo frígido. o sangue é preto.

 

o flagelo de uma lucidez sempre à espreita. que me aponta o gelo, nada me esconde e morde, raivosa, qualquer ilusão de pureza... há algo de bárbaro na forma como me insulto, critico, arbitro qualquer gesto... e um riso macabro que grita cá dentro, sempre que simulo alguma emoção...

 

mas é melhor para os outros. não os envolvo na minha teia fúnebre. não porque sentisse algo ao esvaziar-lhes a vida de sentido, o que sempre me foi fácil, demasiado fácil, mas em nome de uma estranha ética privada, cinzas de outros tempos, de outra vida, de outra luz...

 

como me apetecia um corpo quente de mulher. ou uma oração sentida. ou um sono tranquilo, sem espectros sádicos a triturar-me os tomates e a arrancar-me os olhos...

 

as toxinas do medo a envenenar-me a noite... de noite, não somos tão fortes, pois não?!

 

  

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Nocturno

 

 

há nesta noite um silêncio terno, um quase pudor sussurado, discreto perante o meu pranto gemido.

 

há um gotejar marulhado de uma chuva esparsa, perfumando a madrugada de verde... aquele verde que nos invade pelas narinas e nos dá a nostalgia da terra molhada debaixo dos pés descalços...

 

oh noite! lava os meus olhos cansados com as tuas trevas indecisas! que eu respire vivo o teu ar-água, sentindo-o vivo, vida! que as lágrimas minhas se misturem com as tuas, e me sequem a angústia, deixando a emoção primeira de ser criança, novamente criança, a criança livre porque não sabe a prisão, a prisão que se dissolve em orvalho, assim como a lua se dissolve numa mancha de leite de fêmea-mãe, assim como a morte se desvanece nesta noite de redenção...

 

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da morte

 

 

a morte e, por isso mesmo, a vida, são realidades que não podem ser assimiladas, na sua totalidade, por um ser humano. se o fizesse, o resutado seria um enlouquecer vertiginoso desaguando num vegetar de verme, numa máscara de terror... o processo não daria tempo para a alternativa mais digna: o suicídio.

 

a morte, ou melhor, a consciência da morte, é o veneno que tomba o semi-deus, ajoelhando-o.

 

há algo de monstruoso, de altamente improvável, na natureza humana. faz-nos considerar mesmo a hipótese de um deus malévolo. assim como o corpo não resistiria às radiações solares, sem o filtro do ozono, (que aliás, continuamos a destruir com um denodo notável), também o pensamento humano não resistiria à verdade da nossa condição, na sua tremenda extensão. precisamos de filtros, igualmente. é uma questão de sobrevivência!... assim, quando falamos do que há de alienante em variadas amarras quotidianas que balizam a nossa compreensão da vida, falamos sem qualquer carga pejorativa, é uma quetão de sobrevivência, repetimos.

 

há muitas defesas. a base é sempre a mesma: a ignorância. uma vida simples de agricultor, a missa de domingo, de joelhos, perante um deus que sabe e tudo pode, que garante uma vida eterna depois da morte. e um casamento, filhos, netos, a morte, fim de história. uma vida de ovelha beata, conduzida por um pastor. nada mau!

 

infelizmente, isso não é para todos: só para quem pode. temos, depois, uma imensa variedade de estados alternativos de ignorância. não tão perfeitos como uma crença religiosa profunda, mas enfim, nem todos nascem com a enternecedora tendência para a vida de rebanho.

 

e há os outros, essas inquietas criaturas, atormentadas por medos, dúvidas, esses que amam a cultura e a beleza. do génio humano, esses que cultivam o conhecimento e abominam a ignorância, esses que a noite encontra de olhos abertos, assombrados pelos mistérios insondáveis, para esses, só uma solução: escrever, não é uma solução perfeita.

é a unica.

 

assim, se a morte vos infernizar
as noites e os dias,
se a insónia vos arrastar para aquela estranha
vigíla sonâmbula de espectros,
se o suicídio vos aspirar para o seu
vácuo repousante,
se a loucura vos espreitar, insidiosa,
da soleira de um riso histérico:
escrevei!

 

escrevei, escrevei sobre a morte, o suicídio e a loucura,
escrevei sobre a vida esquizóide dos vossos vizinhos,
escrevei sobre o horror da fome e da guerra,
escrevei sobre a forma infame
como os animais e as crianças são tratadas...
sobre tudo,
tudo o que vos abate,
escrevei até que a angústia
se esvaia um pouco,
enterrada
numa montanha de palavras
e cansaço.
escrevei até que venha o
abençoado vazio
de um cérebro anestesiado
pelo incrível poder narcótico
da palavra!
 

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