dia após dia,
choco de frente,
inábil,
com os vossos odiosinhos de
colecção...
Sinto-vos poeira e neblina
agredindo-me os olhos e o
sangue.
estou doente!
estou doente!
tenho terror de vos conhecer
melhor,
nunca mais conseguir
adormecer...
tenho a dor das insónias
a rasgar-me a cabeça
em guinadas de agulhas,
sinto-me a desintegrar...
exausto,
este cansaço escuro
instilando
impotências,
(oh! um sono mineral!)
as pálpebras são dois véus ardentes
de um sombrio roxo de
sangue gasto,
poluído,
lento.
tenho a dor
(e talvez a secreta inveja)
do vosso sono tranquilo:
cheira-me a cemitério!
o horror deste silêncio de
camarata,
os resmungos
gemidos
e baba...
um sobressalto roncado
e logo o respirar pausado
de animal;
é irreal:
onde estão os fantasmas do vosso dia
profano??
cheira-me a cemitério:
sonhos em putrefacção,
tresandando a
tumba.
a tremenda saudade
de uma seringa
cheia de paz!
mas que faço ainda
aqui? porque persisto em perturbar
o silêncio sepulcral
com estes gemidos
de presa ferida?!...
sinto em arranhadelas o
horror
de fantasmas
assombrando o real...
o horror indizível
da morte
em máscaras toscas de vida...
não estou bem, aqui!
ou vós não estais bem aqui!
é que isto é um planeta real,
com dias e noites
e sol e lua e estrelas e nuvens e
terra e fogo e água
e plantas e animais e
cores
fecundadas pelas luzes e...
e, vós, vós,
venenosos fantoches,
carrascos impunes de tantas infâncias
rasgadas,
vós e os vossos
altares bafientos de medo
e morte!
foda-se que estou farto do vosso
sono de inocentes!!
e o medo de sair deste cemitério!
que é isto? o patético orgulho
do coveiro
passeando entre as campas
de onde todos fogem?!
porquê?
porque não sair daqui,
porque não subir,
(subir ou descer: tudo menos continuar
a ouvir este ressonar de porcos),
subir a um sítio sem cruzes,
sem tempo?!
sim! tenho medo, tenho muito medo!
de tudo:
da vida em solidão de enfermarias,
do íman potente da loucura,
sim! tenho medo! de esquecer as palavras
e não vos entender
quando me chamarem
louco,
quando me prenderem
louco,
quando me calcarem
louco,
medo medo medo medo medo
(e as vísceras mordem com a raiva de
centopeias gigantes)
e penso outra vez
em seringas
gotejando morfina,
e em revólveres de longo cano
e duelos à porta de um
saloon,
e em lutas de faca
ao som de um tango,
e penso no mar
tão profundo,
no silêncio de um mar
profundíssimo,
nos gestos lentos
de um baile de medusas
e eu respiro
devagar
por uma palhinha
de ópio
até que as pálpebras
desçam
com a doçura lenta
de uma língua
de cadela.
