alguma inquietação nestes raros encontros. a sua fuga das minhas palavras. centro: dor e morte, exaspera-me um pouco, refugia-se logo num caudal de histórias de colegas doentes, alunos promissores, de tias e sobrinhas, duma criança vizinha...
se nos víssemos com mais frequência, talvez conseguisse sacudir esta compressão que sito ao falar... tenho medo de a magoar. Sei-lhe a fragilidade. Tenho que manter uma atenção extrema, usar outro alfabeto, que não o do meu teatrinho quotidiano. Esforço-me por não usar expressões obscenas, não usar a brusquidão habitual, quando me apetece acabar uma conversa e ficar sozinho...
é a pessoa por quem senti, talvez sinta ainda, algo de genuíno e profundo, uma comunhão sincera, nesta caminhada acida que é a minha vida.
mas estou mais degradado. receio que a impaciência transborde e magoe quem tanto gosta de mim... por outro lado, tão viciado nas minhas feridas abertas, ciosamente abertas por uma lucidez que as mantém infectadas e me fazem estar quase sempre sozinho, temo que a emoção e o calor que sinto perto dela me paralisam num quase imobilidade de animal espancado...
e o medo de rebentar numa crise de choro, perto dela...
assim, cuidadoso, falo pouco. mas falo do que falo sempre: negro, vazio, gelo, morte, solidão. não sei falar de mais nada, quando estou com ela. tento falar de uma forma não dramática, pois é assim que as sinto. são velhas companheiras de sempre. e ela, pela enésima vez, apesar da sua imensa inteligência e sensibilidade, não aceita. que não que há momentos de felicidade redentora, que há pessoas que vale a pena conhecer, que quer alguma cor nos meus dias escuros, alguma emoção...
e eu digo que tenho os meus momentos felizes, os meus prazeres. os livros. a música. o cinema. longos passeios solitários perto do mar. que isso me basta... que o contacto com as pessoas, em geral, me causa uma disfarçada aversão...
e separámo-nos coma tristeza de sempre... ambos sabemos que o próximo encontro será muito tempo depois...
e agora, no meu quarto, escrevo. tento dissipar essa tristeza. e apetece-me escrever tudo o que não consigo dizer-lhe. tudo. que estou farto desta europa cancerosa e hipócrita. farto destas catedrais bafientas. farto destas catedrais bafientas. farto destes canais de televisão de merda. farto destas vidinhas de porcos sobre nutridos cretinos.
dizer-lhe que quero espaço. mais espaço. espaço para conseguir o silêncio. um ligeiro cheiro a jasmim. redescobrir a sábia lentidão do tempo, ler um poema de rilke e deixá-lo ressoar no meu corpo como pancadas de coração... ouvir música de bach e deixar cair as lágrimas com um alívio de bálsamo...
que eu só quero apagar todos os néons destas noites profanas de boémia. fugir para um campo verde, reencontrar a noite, olhar nos olhos, afogar os olhos nas estrelas, até esvaziar o cérebro de toda a merda , até que só fique a emoção religiosa de estar vivo...
mas o silêncio nunca dura, aparece sempre uma voz gritada, luzes, há sempre o imenso ruído das pessoas, puta que os pariu!... e eu não quero nada com as pessoas, foram elas que me foderam todo, que me prenderam numa rede de memórias de pesadelo, e quanto mais esbracejo, mais sufoco, tenho que estar imóvel, numa imobilidade de camaleão, ser cinza no cinzento, passar despercebido, deixá-las passar, deixá-las passar, deixá-las ir nas suas azáfamas de insecto...
pelo menos, estou a escrever, estou a escrever. e é bom escrever. faz-me bem ao corpo. escrevo sempre a mesma coisa , só pequenas variantes, sempre o mesmo gemido, sempre o mesmo discurso egocêntrico, patético de auto comiseração... não me interessa! escrever é bom! e eu sou o centro do mundo! claro que sou! do meu mundo...
também há as armadilhas, sempre à espreita. distrais-te um segundo e pronto já está! ...
olho os olhos de uma criança maltratada e sinto toda a dor que dilacera o seu corpo inocente... sinto o quanto há de pérfido, repugnante, na gentalha que rasga as infâncias de tantas formas... e volta-me a raiva de fera. e agrada-me esta raiva. é uma raiva que quer sangue, tenho que ter cuidado, eu sei, mas reconforta-me. e reconforta-me saber que que vou morrer sem filhos, que nunca teria a sádica ousadia de lançar uma criança neste mundo de monstros...
e reconforta-me saber que nunca verei um documentário sobre a fome, miséria e dor deste planeta maldito, sem que a vergonha me assalte. que nunca vou proferir comentários compungidos, de circunstância, de teatrinho das sensibilidades... nunca! perante essas realidades, só há duas reacções aceitáveis: o silêncio como um manto negro de opróbrio; e o vómito. vomitar-lhes tudo, tudo, nas gravatas pesporrentas de europeus, no seu ridículo etnocentrismo de super civilização de farsa, racistas de merda, xenófobos filhos de uma grande puta europeia...
quando é que alguém vai ter os tomates de reescrever a história deste milénio, numa lucidez desassombrada, e chamar à europa o que ela foi, o que ela é: o cancro incurável que infectou o mundo de ganância e morte, em nome de uma civilização superior... e deu no que deu! olhemos à nossa volta. e deu no que deu. será preciso dizer mais ? deu no que deu...
e eu sou um filho desta puta-europa. amo os seus poetas. amos os seus músicos. amo e amarei até morrer. amo como nunca amei ninguém!...
mas, a imensa dor das crianças! a ignomínia..
Índice de Parte II