do gelo

 Warren, Avalanche

 

porque é frio, mas queima a pele em calafrios de amante.

 

porque há o desejo da incorruptibilidade. o gelo preserva.
em última análise, permite sobreviver.
também preserva os ódios, todos os ódios.
não preserva o corpo mas adia-nos o fim.

 

porque não é pedra. às vezes dissolve-se um pouco, e das suas lágrimas
nasce uma grande alegria.

 

porque o melhor gelo é de água pura.

 

porque gosto da vastidão silenciosa dos glaciares. do seu branco sem
medida, sem arestas, onírico.
da sua fauna: ursos polares que são só duas luzes inocentes de olhos;
pinguins, que seriam pomposos, se não tivessem o ar inteligente de quem
sabe rir-se de si próprio; focas e lobos marinhos, tão inábeis em terra, arrastando-se em sacões de paraplégico, mas que, quando entram na água
gelada, são de uma graciosidade de criança livre, aquecendo-me os olhos de
ternura.

 

pelo seu branco translúcido de nuvem sozinha. não tapa o sol. não escurece
o dia. contrasta com o azul, fazendo-o mais azul.

 

porque conserva os corpos derrotados na morgue, até ao adeus uivado de
uma mãe.

 

porque gosto do branco e vivo atolado no preto da indiferença.

 

por tudo

 

Índice de Parte II

palavra

 Warren, The intellect

 

no fim do dia, há um cansaço dos olhos e do cérebro, o desejo de negro e
silêncio... sinto-me inquieto. não me apetece ler, não me apetece ver
ninguém, não me apetece ir a lado nenhum.

 

só a música me repousa um pouco, escolho-a cuidadosamente, deito-me num quarto escuro, espero pacientementeque as imagens se dissolvam no écran tremido das minhas pálpebras... demora algum tempo... respiro muito lentamente... mergulho numa letargia e adormeço. mas é um sono agitado, entrecortado.

 

preocupa-me não conseguir ler. o meu refúgio de sempre. ocorre-me a voz
rouca de jim morrison: "I'll always be a word man. better than a bird man."
e concordo com esse lagarto gordo, que ainda vive nos sonhos suados de
tantas adolescentes. não há voos mais belos que os desenhados por
palavras... nada mais fascinante. mas agora, inundado de imagens, agora,
não consigo olhar um livro sem sentir o enjoo de quem salta de um barco
para terra firme... as palavras bailam, trocistas, talvez uma dança de
despedida, de um amor morto...

 

serei sempre um homem da palavra.

 

Índice de Parte II

balada do gelo

 Sander Kamermansm, Fishing

 

há nestas noites perdidas
a dor gelada do teu corpo ausente,
do abraço das tuas pernas fendidas
desabrochando num sorriso quente.

 

é a saudade dolorida
das tuas mãos cruéis
que me rasgam a pele ferida,
desenhando no meu corpo
o mapa do teu desejo,
a mordedura da tua boca salgada
percorrendo-me insaciada
na tortura de um longo beijo.

 

sempre nestas noites perdidas,
a dor gelada do teu corpo ausente,
da prisão das tuas pernas rendidas
desabrochando num gemido quente.

 

e quando o sol começa a despontar
e eu consigo adormecer,
juro-te, minha querida,
que nunca mais quero acordar.
 

 

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DA AMIGA

 

 

alguma inquietação nestes raros encontros. a sua fuga das minhas palavras. centro: dor e morte, exaspera-me um pouco, refugia-se logo num caudal de histórias de colegas doentes, alunos promissores, de tias e sobrinhas, duma criança vizinha...

 

 

se nos víssemos com mais frequência, talvez conseguisse sacudir esta compressão que sito ao falar... tenho medo de a magoar. Sei-lhe a fragilidade. Tenho que manter uma atenção extrema, usar outro alfabeto, que não o do meu teatrinho quotidiano. Esforço-me por não usar expressões obscenas, não usar a brusquidão habitual, quando me apetece acabar uma conversa e ficar sozinho...

 

é a pessoa por quem senti, talvez sinta ainda, algo de genuíno e profundo, uma comunhão sincera, nesta caminhada acida que é a minha vida.

 

mas estou mais degradado. receio que a impaciência transborde e magoe quem tanto gosta de mim... por outro lado, tão viciado nas minhas feridas abertas, ciosamente abertas por uma lucidez que as mantém infectadas e me fazem estar quase sempre sozinho, temo que a emoção e o calor que sinto perto dela me paralisam num quase imobilidade de animal espancado...

 

e o medo de rebentar numa crise de choro, perto dela...

 

assim, cuidadoso, falo pouco. mas falo do que falo sempre: negro, vazio, gelo, morte, solidão. não sei falar de mais nada, quando estou com ela. tento falar de uma forma não dramática, pois é assim que as sinto. são velhas companheiras de sempre. e ela, pela enésima vez, apesar da sua imensa inteligência e sensibilidade, não aceita. que não que há momentos de felicidade redentora, que há pessoas que vale a pena conhecer, que quer alguma cor nos meus dias escuros, alguma emoção...

 

e eu digo que tenho os meus momentos felizes, os meus prazeres. os livros. a música. o cinema. longos passeios solitários perto do mar. que isso me basta... que o contacto com as pessoas, em geral, me causa uma disfarçada aversão...

 

 

e separámo-nos coma tristeza de sempre... ambos sabemos que o próximo encontro será muito tempo depois...

 

e agora, no meu quarto, escrevo. tento dissipar essa tristeza. e apetece-me escrever tudo o que não consigo dizer-lhe. tudo. que estou farto desta europa cancerosa e hipócrita. farto destas catedrais bafientas. farto destas catedrais bafientas. farto destes canais de televisão de merda. farto destas vidinhas de porcos sobre nutridos cretinos.

 

dizer-lhe que quero espaço. mais espaço. espaço para conseguir o silêncio. um ligeiro cheiro a jasmim. redescobrir a sábia lentidão do tempo, ler um poema de rilke e deixá-lo ressoar no meu corpo como pancadas de coração... ouvir música de bach e deixar cair as lágrimas com um alívio de bálsamo...

 

que eu só quero apagar todos os néons destas noites profanas de boémia. fugir para um campo verde, reencontrar a noite, olhar nos olhos, afogar os olhos nas estrelas, até esvaziar o cérebro de toda a merda , até que só fique a emoção religiosa de estar vivo...

 

mas o silêncio nunca dura, aparece sempre uma voz gritada, luzes, há sempre o imenso ruído das pessoas, puta que os pariu!... e eu não quero nada com as pessoas, foram elas que me foderam todo, que me prenderam numa rede de memórias de pesadelo, e quanto mais esbracejo, mais sufoco, tenho que estar imóvel, numa imobilidade de camaleão, ser cinza no cinzento, passar despercebido, deixá-las passar, deixá-las passar, deixá-las ir nas suas azáfamas de insecto...

 

pelo menos, estou a escrever, estou a escrever. e é bom escrever. faz-me bem ao corpo. escrevo sempre a mesma coisa , só pequenas variantes, sempre o mesmo gemido, sempre o mesmo discurso egocêntrico, patético de auto comiseração... não me interessa! escrever é bom! e eu sou o centro do mundo! claro que sou! do meu mundo...

 

também há as armadilhas, sempre à espreita. distrais-te um segundo e pronto já está! ...

olho os olhos de uma criança maltratada e sinto toda a dor que dilacera o seu corpo inocente... sinto o quanto há de pérfido, repugnante, na gentalha que rasga as infâncias de tantas formas... e volta-me a raiva de fera. e agrada-me esta raiva. é uma raiva que quer sangue, tenho que ter cuidado, eu sei, mas reconforta-me. e reconforta-me saber que que vou morrer sem filhos, que nunca teria a sádica ousadia de lançar uma criança neste mundo de monstros...

 

e reconforta-me saber que nunca verei um documentário sobre a fome, miséria e dor deste planeta maldito, sem que a vergonha me assalte. que nunca vou proferir comentários compungidos, de circunstância, de teatrinho das sensibilidades... nunca! perante essas realidades, só há duas reacções aceitáveis: o silêncio como um manto negro de opróbrio; e o vómito. vomitar-lhes tudo, tudo, nas gravatas pesporrentas de europeus, no seu ridículo etnocentrismo de super civilização de farsa, racistas de merda, xenófobos filhos de uma grande puta europeia...

 

quando é que alguém vai ter os tomates de reescrever a história deste milénio, numa lucidez desassombrada, e chamar à europa o que ela foi, o que ela é: o cancro incurável que infectou o mundo de ganância e morte, em nome de uma civilização superior... e deu no que deu! olhemos à nossa volta. e deu no que deu. será preciso dizer mais ? deu no que deu...

e eu sou um filho desta puta-europa. amo os seus poetas. amos os seus músicos. amo e amarei até morrer. amo como nunca amei ninguém!...

 

mas, a imensa dor das crianças! a ignomínia..

 

 

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Mãe

 

 

andam por aí, por essas ruas sujas, umas mulheres notáveis.
são mulheres de meia-idade, ligeiramente curvadas. andam frequentemente com sacos com mercearias e pão, que já lhes pesam um pouco nos braços cansados. têm um andar silencioso, quase que deslizam. o seu sorriso é tímido, por vezes, quase assustado, nestes tempos de agora, em que toda a gente fala aos gritos e se atropela, numa pressa de grosseria... quando as vejo passar, sinto medo que se magoem, mas, quase sempre, elas passam por essa gente como um rasto de perfume silvestre...

 

são mulheres frágeis. a saúde debilitada pela vida sofrida, pelo trabalho, pelos partos, pelos filhos. no rosto, desenhadas a traço profundo, muitas rugas à volta dos olhos límpidos. foram muitas preocupações. sempre. sempre. e quase nunca com elas. a sua vida correu numa coragem silenciosa, altruísta.
essencialmente, são mães. mais que mulheres são mães.

 

já estão reformadas. mas nunca deixam de trabalhar. têm algumas tardes difíceis. quando estão sozinhas, numa casa que se esvaziou com os anos.
então, por vezes, pensam na sua vida, pensam na sua infância, e começam a chorar devagarinho. sentem que tudo passou muito depressa.

 

essas mulheres que estão sempre em casa. sempre lá. sempre à espera de um filho ou de uma neta. sempre lá. sempre prontas a ajudar. sempre prontas a cozinhar uma refeição tardia.

 

são tardes terríveis. são longas. elas estão sozinhas em casa. e sabem muito bem que não vão estar sempre lá. sentem que não deviam estar sozinhas. que não merecem isso. e têm toda a razão do mundo. mas estou a falar de pessoas muitos especiais.

 

são pessoas de amor desmedido. nunca o dizem, mas acham sempre que os filhos mereciam uma namorada melhor.

 

são mulheres sem preço. se vão ao hospital, visitar um filho doente, olham os médicos e os enfermeiros que o tratam, numa súplica muda de desvelo.

 

são mulheres de eleição!
uma delas é minha mãe!
merecia um filho melhor que eu!
merecia um texto melhor que este.
merecia um mundo infinitamente melhor que este.

 

com amor 

 

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dor

 Carmen Dominguez

 

 

a tristeza que me invade de todo o lado, deixando um lamento ganido...

 

e a noite contínua, na sua lentidão sardónica, vasculhando-me a angústia,
numa crueldade de bisturi ferrugento... estou mais fraco!... estas noites
assustam-me mais.
começo a vergar, debaixo do seu peso asfixiante...
o meu corpo está velho, degradado,
e o medo ainda é o de sempre:
de criança espancada,
olhar nublado,
fixo
numa janela com grades,
a tentar convencer-se
que a luz vai chegar...

 

dor


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CASTELO DE PAIVA 2001 TARKOVSKI

 

 

continuo a olhar o rio.
sinto na corrente fortíssima uma fúria demencial, a raiva do seu curso barrado, filtrado por comportas trocistas... no bramido do seu caudal, escuto um urro de triunfo, a vingança de um rio poderoso sobre a espécie que lhe impôs o ritmo...

 

e os corpos que não aparecem... e os entendidos na matéria que não se entendem... a história que mais me fascina é a de uma viagem submersa dos cadáveres até à galiza... assaltam-me a memória imagens lindíssimas de um filme de tarkosvki, o grande mestre, os planos de estátuas, na água translúcida, a sua brancura marmórea... tenho a certeza que ele seria o único a filmar, com encantamento, essa viagem alucinada de corpos de mulheres do povo (não sei porquê, mas para mim, as vítimas, eram todas mulheres)...
estou a ver o mergulho rápido de uma ponte colapsada num rio irado... o  terror dos gritos logo silenciados pela água escura... a morte às golfadas a entrar pela boca e o nariz... e, então a iluminação  do filme brilhantemente escura... a viagem que começa... começam vestidas de negro, a cor da dor das suas vidas sofridas... as mulheres vão numa vertigem de libertação, vão em grupo, nunca se afastam muito, vão perdendo algumas roupas, entreolham-se com pudor, depois nasce nas suas caras enrugadas um enorme sorriso de alívio e despem o resto com gestos decididos... aparecem os corpos, brancos como manchas de leite no rio cor de terra... corpos inchados, varicosos, disformes, mas nobres, belos pela dor de tantos partos, pelo sofrimento de mulheres-escravas... ganham a brancura de mármore de tarkosvki... este, tão vivo como elas, acompanha-as pelas curvas do rio, num magnífico travelling fluido... traz ao ombro uma câmara antiga de cinema... no silêncio murmurado do fundo do rio, numa cumplicidade de sorrisos e gestos, encena um bailado harmonioso de gestos lentos, frementes de alegria... os seus rostos estão mais iluminados... talvez a manhã esteja a nascer e a galiza depois da próxima curva...

 

 

 

às mulheres do nosso povo.
que as deixem bailar.

 

 


escrevo isto numa esplanada na ribeira do porto. a manhã está plena de sol.
vou olhando o rio, o mesmo rio, hoje manso, sempre belo.
estou feliz por ter chorado um pouco ao escrever... há quanto tempo!... sinto a doce queimadura do sol. olho este rio mágico e penso que gostava de lá ser sepultado...

 

 

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Cactos

  Carmen Dominguez

 

o meu corpo recusa-se a viver.
este corpo só brinca.
brinca à vidinha
patética
das recusas sorridentes.
brinca às
brincadeiras tristes
de corpos
entrelaçados,
de gemidos
simulados.

 

este corpo
só brinca
às palavras vendidas
de mentiras
de mentiras
de mentiras.

 

este corpo
só brinca à vidinha
de ninfeta
no deserto:
o clítoris em chama
e à volta só há cactos.

 

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Cão Pintado de Verde

 Alex Katz

 

  

hoje vi um cão pintado de verde.
passeava na praia com a minha mãe e vi-o.
tinha um ar aflito, humilhado. segui-nos durante alguns minutos. pensei
que queria um banho. que lhe arrancassem aquela tinta ridícula. aquele cheiro.

 

pensei que a crueldade, a estúpida crueldade humana, ainda me consegue surpreender.

 

há umas noites, um amigo, quando falámos de uns indivíduos
particularmente repulsivos, citou uma frase de cardoso pires: "Isto não é um país. É um lugar mal frequentado."
esta frase tem-me ocorrido demaiadas vezes. excessivamente adequada.

 

um cão pintado de verde. mais um direitinho para figurante nos meus pesadelos.
que filhos da puta!

 

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Anjos

 

há músicos com quem temos uma cumplicidade especial. estou a ouvir o meu preferido: tom waits. e ouço:

 

                                       "if I exorcise my devils"
                                       they're so hard to find"my angels may leave too
                                       and when they leave
                                      

 

penso, amargo, que caí nesse erro. quis afastar os demónios da dor e fiquei
sem nada... perdi a dor e perdi a poesia. ninguém me magoa mas nada sinto... ficou uma máscara inchada de normalidade a tapar-me o vazio.

 

e acho que perdi os meus anjos
para sempre.

 

 

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Greenway

  

 

a dor salgada pelo menino-deus despedaçado pelas mãos sujas da turba... e
da mãe-irmã, assassina, violada duzentas e vinte e duas vezes, violada até à morte...

 

a beleza barroca, púrpura, putrefacta, de um filme de greenaway, provoca-me um embaraço de familiaridade... sinto, absurdo, que ele viu alguns dos meus pesadelos em sessões nocturnas de cineclube.

 

a assombração dos coro inumanos.
vozes angélicas em corpos horrendos, chagados...
como se a música fosse a única redenção, o único refúgio da beleza num
mundo grotesco...

 

seja!
que a música nos redima dos dias amargos!
que nos cerre as pálpebras, quando a luz azeda nos arranhar, nestas noites
de choro seco!
que a música rompa as trevas opressivas da insónia e deixe cair as lágrimas!

 

 

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Recado do Gelo Macho

 Howard

 

 

minha querida, não leves a mal, mas estou farto de que passes a vida a chamar-me querido.
e farto do teu corpo perfeito, do teu bronzeado integral.
farto dos teus dentes impecáveis, que te fazem sorrir demasiado.
farto da tua compreensão excessiva.
e, mais do que tudo, farto da puta da mania de me estares sempre a tocar. e da putíssima da mania de me quereres beijar na boca. entende, de uma vez por todas, que sempre preferi beijar um clítoris rubro. acho mais higiénico.


um pouco de espaço, querida.
não! não me chames querido, por favor.
um pouco de tempo solo.
deixa-me ficar sozinho até que sinta a tua falta. mesmo que demore...


bem... pela tua cara ofendida, parece que é até nunca mais.
pronto. está bem. como queiras.
mas sei que vou ter saudades do teu corpo perfeito.
saudades dos teus dentes, que me arranhavam o corpo com minúcias de exploradora temerária.
e, já que queres que isto seja uma despedida, fica a saber: quando eras assim, quando estavas empenhada no safari da minha selva central, calada e sem sorrir, pois claro, eras muito agradável.
não. não precisas de agradecer.
espero que sejas feliz.
adeus.

 

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Luna

 

 

os dias arrastados, atolado na lama do tédio e do desprezo...
a única coisa que me sacode, altera este torpor, é olhar esta cadela velha, cega, diabética... a forma como deambula pela casa, as pancadas que dá nos móveis e nas paredes e me põe a cabeça a latejar... a sua tristeza deprimida... de repente, corre decidida contra a porta da rua e geme baixinho de dor...
quer os banhos de sol no primeiro degrau... o sol que nunca mais verá... e eu chamo-a: luna! ela olha para mim, os olhos brancos líquidos de dor,
leio no seu olhar acusador uma súplica de morte...

 

e eu saio de casa...

 

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DO AMOR

 

 

a suave paz que me vem de uma longa caminhada na praia, debaixo de um sol forte de março... depois, um mergulho abrupto neste mar frio... e deito-me ao sol, a ressaca dissipada... e apetece-me escrever...

 

sinto uma gratidão imensa por este sol, por este mar, pelo meu corpo forte que resiste e eu desintoxico nestas manhãs e envolto numa película de suor e sal... então, penso em ti e vem-me uma potentíssima erecção... e queria-te aqui... penso, com amargura, que quando estamos juntos e eu estou no meu estado habitual e detesto ser tocado, detesto tocar alguém... estou a ver agora os teus olhos húmidos de mágoa, a humilhação de mulher que ama e sente um calafrio de aversão debaixo de uma carícia de fome... e eu tento disfarçar mas a tua mão já fugiu num recuo de queimadura e eu olho o teu sorriso triste e amaldiçoo-me o gelo e tento explicar que te amo, que nunca amei assim e tu continuas a sorrir mas os teus olhos choram e aí, juro que só queria que tivesses um ataque de fúria e me espancasses até ao sangue, até que o calor lagrimado do sangue me despertasse do torpor em que vivo e eu te mordesse o sorriso triste e os seios com a boca a sangrar e entrasse em ti com toda a força do mundo e mais ainda, até te tirar a dor dos olhos... a dor de gostares tanto de um patético filho da puta como eu... foder-te até te ouvir a música gemida e depois os corpos ficam colados, molhados e eu sinto os teu pulmões ofegantes e abraço-te e abraço-te com tanta força que quase te esmago e toda a minha força quer exorcizar todo o teu sofrimento passado e futuro , todo o incomportável sofrimento que sente rasgada toda a dor das crianças maltratadas, que vive para as ajudar e eu não sei como te aguentas, minha querida, mas agradeço a todos os deuses por isso...

 

e agora, na praia deserta, o pénis inchado escondido na areia, escrevo e penso em ti e queria-te tanto aqui... mergulho a mão esquerda na areia numa busca insana do teu corpo quente... e tenho a revelação súbita que esta é a primeira declaração de amor da minha vida... 

 

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Indice de Parte II

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