Memórias

 

estive a reler alguns textos da adoslescência.

 

a sensação foi penosa. pensei: ostento as minhas cicatrizes com alquebros de puta velha embriagada, julga-se ainda desejável, pensa que os homens lhe sorriem sorrisos de sedução, mas estes, na enorme crueldade de machos, riem-se dela. pensei isto. não sei bem porquê, mas pensei isto.

 

um exemplo. quando fiz catorze anos, escrevi um texto, era simples, era escrever uma palavra para cada ano de vida. cada linha, uma palavra para cada ano de vida. cada linha , uma palavra.
escrevi:"caralho". em todas as catorze linhas. a diferença estava na pontuação. nos útimos anos, o número de pontos de exclamação ia aumentando. na última linha, já ía em cinco.
acabava "não me sinto nada optimista."

 

leio estes textos com algum constrangimento. parecem-me excessivos, exibicionistas, quase escatológicos... mas sei que a dor estava lá que era genuína...

 

sei que a escrita (por muito patéticos que me pareçam esses textos, passados tantos anos), me salvou a vida muitas vezes...
mas não consigo deixar de pensar que podia usar um vocabulário mais variado... presinto nalguns textos algum despudor, algum comprazimento masoquista, algum orgulho mesmo...

 

penso depois que a adolescência é uma fase complicada. que lidei com ela como pude. que escrevi aquilo, foi porque me apeteceu escrever aquilo.
e que fiz muito bem...

 

crianças

Warren, Awkward age

 

 

as crianças causam-me dores de cabeça.
consultei um médico muito competente. disse-lhe: "as crianças causam-me
dores de cabeça".
acenou compreensivamente. o seu olhar era penetrante. "mas só quando
fazem barulho? ou sempre?"
confessei que era sempre, mesmo quando estavam caladas, que não
paravam quietas, que tinha sempre medo que se espetassem de cabeça
contra um móvel ou uma parede.
assentiu com um mumúrio. pensou uns segundos. "só vejo uma solução:
evite o contacto com crianças." - disse com inteligência. " e nem pense em
ter filhos, ouviu? não me parece aconselhável, no seu caso."
concordei prontamente, acho que nunca tinha pensado nessa possibilidade
sequer.


por uma questão de segurança, frisou, "vamos marcar a data para uma
vasectomia, é uma coisa simples. cinco minutos e já está." aconselhou-me a
sua própria clínica, que era um pouco mais caro mas que era outra
limpeza...
paguei a consulta. achei bastante dinheiro, mas, já se sabe, quando se quer o
melhor...


saí, o dia parecia-me mais claro. sentia-me bastante aliviado.
escolhi cuidadosamente uma esplanada. nem um boné de criança à vista.
pedi um café.
sentia-me bem. ocorreu-me depois que talvez a operação não fosse
necessária, dada a minha completa impotência sexual dos últimos trinta e
seis anos. ponderei a questão, enquanto mexia o café. optei por manter a
operação marcada.
não vá o diabo tecê-las...

 

dos prazeres

Francisco Suñer

Francisco Suñer

 

sou uma pessoa de excessos, confesso.
gosto de comer muito, também de beber muito.
Isso faz de mim uma pessoa excessivamente gorda, já no limiar da obesidade... o que não me preocupa muito...
são prazeres que levo muito a sério. são acessíveis e a gama de escolhas é infindável. este mundo terá muitos defeitos, mas tem uma culinária riquíssima.

perceber-se-á, portanto, a importância que atribuo à descobetta de novos restaurantes. é maravilhoso quendo se acerta! saio inchado de satisfação e comida, memorizo cuidadosamente a sua localização, qual o seu dia de folga semanal, enfim, saio com a gulosa certeza de que lá vou voltar.


mas, e há sempre um "mas" nesta história dos prazeres, isto não é fácil.
tenho tido muitas desilusões. ou é a comida que não agrada, ou o vinho, ou o serviço desleixado (abomino especialmente que me sirvam a mascar pastilha elástica, é que nem falo, levanto-me despeitado e saio a praguejar contra o enurgúmeno ruminante...), ou o barulho é muito (as pessoas falam cada vez mais alto, não sei se já repararam, pedem que lhes passem o sal com um tom de voz mais adequado para um alerta de incêndio), ou seja, falho miseravelmente na minha empenhada pesquisa...


mas isto foi num período negro da minha vida. cheguei mesmo a perder peso... um dia, talvez o mais importante da minha vida, descobri um sistema quase infalível. é de uma simplicidade enorme, mas abriu-me as portas da felicidade. quase que temo divulgá-lo... mas sou magnânimo! e solidário com quem leva isto isto da gastronomia com a devida seriedade...


deambulo pacientemente por essas ruas, à hora do almocinho, até o descobrir, o meu farol da gula, a minha pista certeira: um carro funerário estacionado perto de um restaurante. é tiro e queda! claro que o carro não estava lá de serviço. se o caso for esse, até aconselho a que procurem outro pouso. não! o carro está lá porque a pessoa que o conduz, invariavelmente vestida de cinza escuro e gravata preta, está na abençoada pausa para almoço. e já está! temos restaurante!
desenvolvi uma imensa admiração pelos agentes funerários. pelo seu impecável gosto em restaurantes. pela sua postura digna e sisuda. pelas impecáveis maneiras à mesa. pela sua imensa contenção, mesmo quando olham para o mais delicioso pitéu, nunca esboçam um sorriso. mas eu sei que estão a gozar o almoço deliciados... que eu bem os vejo, quando chegam atrasados ao repasto. sim, que há funerais e funerais, há-os mais demorados, mas leio na amargura do seu olhar, nessas ocasiões, que os preferem mais curtos, especialmente àquela hora...


e é delícia! a comida boa e farta, a bebida farta e boa, o preço é razoável, o serviço bom, a higiene do estabelecimento impecável, a clientela é sossegada e polida...


tenho meditado muito sobre esses agentes funerários. de onde lhes virá o talento de pesquisadores de restaurantes, a forma metódica como esvaziam o prato e a garrafa até à última gota, do silêncio respeitoso que provocam nos outros comensais e nos empregados.
há várias hipóteses, mas não me interessa muito aprofundá-las. o que me interessa é que esse sistema resulta. que mudou a minha vida.


e sou homem de grandes sentimentos. sei o que é o reconhecimento. já deixei indicações rigorosas quanto ao meu funeral. que seja curto. que nunca, em caso algm, acabe depois do meio-dia.


salut

do racismo

 

 


racista, eu? o absurdo de tal insinuação nem me permite sentir uma indignação ofendida... logo eu, entre todos! eu?! sei, já há algum tempo, que o meu sonho mais querido era ser preto. teria uns dentes saudáveis e branquinhos e uma pila grande. logo dois dos meus maiores problemas!

 

aposto que sorriria com uma frequência algo excessiva. aquele sorriso um pouco imbecil de preto, num anúncio de café africano, mas enfim...

 

e aliás, sou português, e toda a gente sabe que os portugueses não são racistas. foram, até, os colonizadores mais carinhosos da história...

 

 

Do direito do trabalho

Aurelio Arteta

 

portugal. 2003.


a desregulamentação progressiva das leis laborais está a conduzir-nos a uma
nova era, particularmente auspiciosa, plena do perfume do inesperado...


os obstáculos têm sido vários. alguns agentes sindicais, de visão retrógada e
inflexivel nestas matérias, tentam ainda, de toda e qualquer forma, parar a
gloriosa marcha da liberalização total das relações laborais. só estão a adiar
o inevetável, mas enfim...


vamos lá chegar! oh se vamos! vamos atingir aquele almejado estádio em
que se pode despedir um trabalhador por capricho. porque sim.
sem entregas legais. sem toda aquela trapalhada legistativa, essa máquina
ferrugenta que nos tem impedido, mais do que qualquer outra coisa, de
sermos competitivos na área na área empresarial.


ah! avizinham-se tempos magníficos!


e não me venham com aquelas tretas do pobrezinho do trabalhador, que
fica indefeso, coitado. por amor de deus!


é sabido, de há muito tempo, que a precaridade, a insegurança, são a
melhor solução para o problema do tédio no trabalho. e as pessoas até
trabalham com outra disponibilidade, outro espírito, querem demonstrar
que fazem falta, que são dinâmicos e empenhados. e eu detesto ver, hoje em
dia, tanta gente aborrecida com o seu trabalho, a bocejar três vezes e meia
por minuto (ao que demonstrou um estudo recente, de idoneidade
inatacável)... porra que o trabalho incomoda-os mesmo... pois, pois, a
monotonia, sempre as mesmas caras, as rotinas que impedem a criatividade,
os horários rígidos... coitadinhos!... isso vai acabar!... em último caso, vão
descobrir caras novas no centro de emprego da zona, podem repousar um
pouco do jugo das máquinas de ponto e tudo... vão ver que será
interessante. a mudança de trabalho revela sempre novas facetas das
pessoas... mesmo no período de transição, esse período, mais ou menos
longo, de desmprego, vão ver que se aborrecem menos. tempo para tudo:
para pôr a leitura em dia, para praticar yoga, para o que quiserem...


terão todas as oportunidades de demonstrar criatividade, mais que não seja,
em conseguir viver sem o dinheiro do salário...


claro que há pequenos problemas. nada de muito relevante. por exemplo, o
facto de uma vertebral vertical, pouco curvada, induzir facilmente ao
despedimento. não é grave. aliás, ainda segundo o estudo acima citado (acho
que encomendado pelo sr dr bagão félix e, portanto, acima de qualquer
sombra de suspeita), prova-se que se pode trabalhar bem com uma
coluna encurvada... aliás, uma das conclusões mais interessantes desse
estudo, é que até há trabalhos que se fazem melhor de joelhos... que não é
necessáriamente uma postura de devoção... aliás tão cara a tão pio ministro.


que deus nos ajude!

 

filhos

Warren, Mysteries of Life

  

há algumas razões para ter filhos.
há muitas razões para não ter filhos.
uma base basta-me: o medo.

 

o medo de ter medo por eles até ao fim da vida.
o medo de ver a sua fragilidade de anjos travessos rodeada de tantas lâminas dentadas.
 

 

 Índice de Parte III

cão com coleira azul

 

 

hoje vi um cão preto com uma horrenda coleira azul-eléctrico.
o mau gosto, a dissonância das cores, chocou-me um pouco.
uns metros atrás, vinha o dono, afinal, a escolha das cores tinha sido deliberada, vestia uns calções azul-eléctrico, uma t-shirt preta com letras
vermelhas a dizer super-bock. o seu mau gosto foi-me indiferente.
assentava-lhe bem.

 

aposto, no entanto, que o cão escolheria outra cor.
talvez o preto.

 

 

Índice de Parte III

Da importância da Educação

 

há pessoas que ainda não se aperceberam que vivemos numa sociedade em
constante mudança. que a sua dinâmica não se compadece com a
conservação e a transmissão de certos valores que nos foram inculcados na
infância. que esses valores se trnsformaram rapidamente numa
desvantagem.
podem, inclusive, conduzir a uma marginalização social. valores normais há
poucas décadas, são hoje quase comportamentos desviantes, quase sintomas
de uma sociopatia preocupante.
ora isto é grave. deve preocupar-nos. especialmente os pais e profissionais
da área educacional, sob pena de estarmos a preparar de forma errada as
crianças para um futuro normal.

isto a propósito de um caso recente. impressionou-me bastante.
um jovem com uma educação demasiado conservadora, ofereceu o seu
lugar no autocarro a uma mulher grávida. e ainda hoje acredito que o fez
sem maldade, mas os resultados foram sinistros: Por entre a perplexidade
geral, a mulher entrou em pânico e desmaiou. perdeu o filho. alegará depois,
em chorosos depoimentos em tribunal, que pensou que esse jovem de ar
esquisito se levantou para lhe morder o ventre.
o jovem foi condenado a prisão perpétua.


os perigos de uma educação desajustada!

 

 

Índice da Parte III 

mãos

 Hands by Nuttygopher

 

 

houve uma flor
que se me ofereceu.
toquei-lhe,
tomei-a com as duas
mãos.
ficou murcha.
logo perdeu o viço
e o verde
e o perfume.

 

chorei muito essa flor.
amaldiçoei-me
as mãos.

 

agora,
colho-as já murchas
e gastas,
gosto mais das minhas
mãos,
agora.

 

algumas
rejuvenescem devagar.

 

 Índice de Parte III

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