
Francisco Suñer
sou uma pessoa de excessos, confesso.
gosto de comer muito, também de beber muito.
Isso faz de mim uma pessoa excessivamente gorda, já no limiar da obesidade... o que não me preocupa muito...
são prazeres que levo muito a sério. são acessíveis e a gama de escolhas é infindável. este mundo terá muitos defeitos, mas tem uma culinária riquíssima.
perceber-se-á, portanto, a importância que atribuo à descobetta de novos restaurantes. é maravilhoso quendo se acerta! saio inchado de satisfação e comida, memorizo cuidadosamente a sua localização, qual o seu dia de folga semanal, enfim, saio com a gulosa certeza de que lá vou voltar.
mas, e há sempre um "mas" nesta história dos prazeres, isto não é fácil.
tenho tido muitas desilusões. ou é a comida que não agrada, ou o vinho, ou o serviço desleixado (abomino especialmente que me sirvam a mascar pastilha elástica, é que nem falo, levanto-me despeitado e saio a praguejar contra o enurgúmeno ruminante...), ou o barulho é muito (as pessoas falam cada vez mais alto, não sei se já repararam, pedem que lhes passem o sal com um tom de voz mais adequado para um alerta de incêndio), ou seja, falho miseravelmente na minha empenhada pesquisa...
mas isto foi num período negro da minha vida. cheguei mesmo a perder peso... um dia, talvez o mais importante da minha vida, descobri um sistema quase infalível. é de uma simplicidade enorme, mas abriu-me as portas da felicidade. quase que temo divulgá-lo... mas sou magnânimo! e solidário com quem leva isto isto da gastronomia com a devida seriedade...
deambulo pacientemente por essas ruas, à hora do almocinho, até o descobrir, o meu farol da gula, a minha pista certeira: um carro funerário estacionado perto de um restaurante. é tiro e queda! claro que o carro não estava lá de serviço. se o caso for esse, até aconselho a que procurem outro pouso. não! o carro está lá porque a pessoa que o conduz, invariavelmente vestida de cinza escuro e gravata preta, está na abençoada pausa para almoço. e já está! temos restaurante!
desenvolvi uma imensa admiração pelos agentes funerários. pelo seu impecável gosto em restaurantes. pela sua postura digna e sisuda. pelas impecáveis maneiras à mesa. pela sua imensa contenção, mesmo quando olham para o mais delicioso pitéu, nunca esboçam um sorriso. mas eu sei que estão a gozar o almoço deliciados... que eu bem os vejo, quando chegam atrasados ao repasto. sim, que há funerais e funerais, há-os mais demorados, mas leio na amargura do seu olhar, nessas ocasiões, que os preferem mais curtos, especialmente àquela hora...
e é delícia! a comida boa e farta, a bebida farta e boa, o preço é razoável, o serviço bom, a higiene do estabelecimento impecável, a clientela é sossegada e polida...
tenho meditado muito sobre esses agentes funerários. de onde lhes virá o talento de pesquisadores de restaurantes, a forma metódica como esvaziam o prato e a garrafa até à última gota, do silêncio respeitoso que provocam nos outros comensais e nos empregados.
há várias hipóteses, mas não me interessa muito aprofundá-las. o que me interessa é que esse sistema resulta. que mudou a minha vida.
e sou homem de grandes sentimentos. sei o que é o reconhecimento. já deixei indicações rigorosas quanto ao meu funeral. que seja curto. que nunca, em caso algm, acabe depois do meio-dia.
salut