Michelangelo, Criação do Homem, Século XVI, Capela Sistina
literalmente um punhado de palavras cuspindo
o feitiço rouco, um escaravelho mexendo laborioso
no escuro (ou a tua mão), caboucos arruinados
desta casa em ruínas
sempre assim será, um punhado de palavras
ardendo na fogueira mais triste dos anos
porque todos os poetas morrem mais depressa
para que morram mais devagar, é uma
questão de método, a noite tapa com a sua boca
de alcatrão todos os olhos abertos, faz esquecer
faz morrer
todavia os poetas são coisas alucinadas, fósforos
dedos que riscam a sua voz e vêem tudo
até a noite pegajosa, sobretudo as noites pegajosas
e vão morrendo tão lentamente que são flores
coroando a cabeça vazia das palavras
e elas ardem, e eles ardem dentro delas, porque
todos os poetas morrem mais depressa
para que morram mais devagar, é
uma questão de metáforas, e alguns sabem
e muitos não
Este poema foi escrito pelo poeta e amigo João Ricardo Lopes que amávelmente o dedicou a mim e à minha irmã Paula. Bem hajas João.
