
Mariah
No Porto conheci um homem chamado Santiago Rui, poeta desconhecido e angustiado sobretudo por falta de dinheiro. Santiago Rui escrevia amiúde em guardanapos e pedaços de folhas, impecavelmente recortados, irmanados na sua escrita pausada e dispersa. Santiago pedia esmola. Do talento engendrava um ganha-pão humilde. Como se de um postal se tratasse, vendia os seus poemas espontâneos ao preço de qualquer pequena retribuição. Esse facto era, regra geral, motivo de desprezo: desprezo dos que nada percebiam de poesia; desprezo dos que o viam pedir (e o tinham por vagabundo); desprezo dos quepercebiam de poesia, com o qual não fraternizavam, pois deus nos livre de tal vergonha. Além do mais, que poeta poderia ser aquele pobre diabo, de roupa puída e suja.
Nunca soube se era nome verdadeiro o seu, mas conhecia a angústia que nele não se exprimia, a não ser às vezes, por um olhar gelado e mudo, como o de quem acorda de um encanto e se vê numa armadilha insuspeitada.
Um dia Santiago Rui ofereceu-me um dos seus poemas e não aceitou retribuição. Disse me com especial candura que era presente de amigo. Decerto que era, sabia como apreciava a sua escrita e que, ao invés da turba de todos os dias nos cafés da Ribeira, lhe votava um sinal de respeito e admiração. E sabia que me custava vê-lo ali, de mesa em mesa a pedinchar, que o media como a um mano e que como a uma mano me revoltava a sua sorte. Num quarto de página de papel pardo escreveu à laia de dedicatória - Ao poeta que serás, do poeta que nunca fui.
Dias depois, Santiago enforcou-se na trave de uma casa devoluta, perto das muralhas fernandinas. Terminou ele próprio a sua obra inacabada. Nunca publicou, nunca expos a excelência da poesia que lhe era tão cheia de sons luminosos e esmerilados. Santiago perdera-se na aridez dos dias. Dele hoje nada resta, exceptuando talvez a recordação tépida de alguns poucos.
O poema que dele me ficou diz assim:
Entre cada palavra existe a fome de todas as palavras. Apenas lhe conhecemos o rasto da nossa desgraça.
- Céleres havemos de esquecer-nos.
