como viver com estas minúsculas (excerto)

 Chun Nan, Liu Twin

 

 

como viver com estas minúsculas
intempéries, a régua sobre a mesa, a chuva
pendurada nos altos telégrafos da paciência?
o passado levanta as lajes, dentro
do ar as sapatilhas vivem a sua luz ausente.
como nos escapa o que não há ainda!, os barcos
verde claro, e o retrato da sua casa iluminada,
e a alegria desta roupa «desfeita em lágrimas»,
e o cão «piloto» enterrado na hortelã, &
as minuciosas tabuletas anunciando o mar: tudo
costumes locais, colhidos ao acaso das
estrebarias públicas. as
comendas multiplicam-se, & o município vê
ameaçadas as mais altas esperanças. um dia
as árvores aparecem com grandes frutos ocos,
e o vidro cobre as ruas, as lajes
redondas dos passeios.
e estes navios encalhados nos ramos, que arte
os poderia sossegar? é justo que esperemos
transparentes respostas; e que algures
se acabe a transparência, e fique
uma parede lisa; e que nos doa
a memória do enigma. daí, decerto, estas casas
imóveis, com os pássaros a meio;
o rumor dos grandes diques luminosos;
e as mulheres, sentadas nas oliveiras, com
lençóis azuis atados ao cabelo. e ao lado,
a imagem representa um sarau de província, o consumo
inusitado das lareiras, a crise que aguardamos.
 

 (...)

 

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Algumas Horas Outras 1 (de 4)

Ghislain Magritte

Ghislain Magritte

 

algumas horas outras invadiram as sedas, os perfumes
ácidos da louça, não serão recordadas, ou quanto mais
as recordarmos, mais a ignorância deitará
os corpos no tapume de vidros, para que em torno
se conciliem as vontades singulares, as
particularidades de um impetuoso alarme.
ou seja: deixarão as esplanadas baças, os garfos
encolhidos, para que um amplo destino os atravesse.
considere, por exemplo o paquete que  ao meio-dia
digere as minuciosas palmeiras sobre a 
alta insensatez dos aquedutos, ou ainda
a ilusão dos alicates ao lado da água, e o seu reflexo
do outro lado das vidraças: azul, não é?
assim estas algumas outras horas: como esquecê-las?


in «Poemas», Os Objectos Principais
 
pág. 94

Estas Algumas Horas, 1 e 2 (de 5)

Ángel Mateo Charris

 

1

 

recordaremos estas algumas horas, o seu intacto
celofane. dentro
com a inquietação nos apercebemos da sapatilha azul,
e as figuras cromadas da simetria: um tigre
a dilacerara, não fora o estridente apito
doa parafusos. «foolish things». quantas horas
escolhendo os fósforos, a marca
secreta das conservas, e estas imagens
igualmente fúteis. eis como
um osso curva
                o teu choro no meio das gruas,
os longos alicates, e em cima da mesa
a luz clara, eis a marca, o teu
                         uivo.

 

2

o mais ligeiro é o gnomo que pinta acessos
de ironia no tapume. algumas estas horas
o visitaremos, abrindo
                    rápidamente a caixa onde o sabão
nos esteve atraiçoando.
e ainda as impressões digitais espalhadas na mesa
não teriam permitido reconhecê-los; tanto
o pavor nos inclina os ramos mais altos,
perturbando a passagem dos navios.

 

 

in «Poemas», Os Objectos Principais,
págs 90-92

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esse fantasma levantou os ladrilhos do corredor, entornando

 Ángel Mateo Charris

 

 

esse fantasma levantou os ladrilhos do corredor, entornando
à passagem o balde de geleia azul. foi esta
a primeira lembrança? ou seria
violeta; violenta; violentada; verde?
as nódoas do passado nunca se calam, apesar
de colocadas debaixo do aparador, junto à tua
cabeça maior.
             ou  teremos, um dia, medo
de lhe arremessar objectos grosseiros, alguma
espinha de água verde, ou azul, conforme
o ditarem as circunstâncias? receamos
o nosso destino, e o destino dos nossos
arbustos sem flor. esse fantasma
devorou as sementes, só nos resta
abatê-lo à socapa das mesas. e depois
viveremos na infâmia, no pavor e no nojo.

 


in «Poemas», Os Objectos Principais, pág.88

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«- Índice da Obra de António Franco Alexandre