I - 1. suponha que desprende desaprende (1 de 7)

 Wassily Kandinsky (1866-1944)

 

 1.

suponha que desprende desaprende
que só de si depende separar-se
em esse início a boca desatenta
em mudo ouvido
suponha que me inventa


o liminar deserto desenhando
num princípio de breves acidentes
suponham que conheço a sua terra
o aroma irrespirável dos teares
o azeite da ira e
suponham que os invento


suponha que nasci no mississípi
aprendi a falar no vão do vento
os lábios dos navios já não entendem
o amor às idades muito
lentas
suponho que o invento
suponha que o início não começa
suponha que o princípio não limita
as palavras são duros tornozelos
o sol ruiu nos vidros deslavados
quase nnguém ou nada
o mergulho da tarde nos inventa.

 

in «Poemas», Visitação

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I - 2. eu simplesmente ardi fui o retrato (2 de 7)

Xaime Quessada

 

 2.
 

eu simplesmente ardi fui o retrato
das suas mãos que tecem pesadelos
na margem que deixaram
as migrações do vento


o meu país tem dormições abertas
ao público dos seus
doces tormentos
eu simplesmente ouvi a luz do vento

 


in «Poemas», Visitação

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I - 3. só o ar é humano (3 de 7)

Xaime Quessada 

 

3.
 

só o ar é humano
escasso foi
o início
depois nasceu
o desfile do rosto

 

in «Poemas», Visitação
pág. 124

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I - 4. eden (4 de 7)

Hilário Teixeira Lopes, óeo s madeira, 1987

Hilário Teixeira Lopes, óeo s madeira, 1987

 

4.


Vejo as mãos que escurecem eram
doces os olhos a música das margens
a força caminhava junto
às fontes as douradas
silenciosas romãs


disposto o corpo à sua breve
altura
         vejo a terra quase
incendiada de águas
barcos e
a névoa os dissipa


caem no chão sem cor espalham
pequenos grãos de luz
o sangue
 

in «Poemas», Visitação
pág. 125

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I - 5. já lentamente sofro a tua água (5 de 7)

kezbirdie, Waiting

Kezbirdie, Waiting

 

5.


já lentamente sofro a tua água, o sopro
da memória nas colinas.
deste-me um corpo, e a terra, e a paz
desconhecida.
nesta cave de pele te implorei os dias
o óleo da manhã nas mãos desertas.
a cada instante me devora o gume
embotado da tua
luz sonora.


afasta do meu rosto a tua vã promessa. deixa
que seja brando o sono sem lembrança,
um chão na terra nua.
do teu jardim de chamas me despeço.

 
in «Poemas», Visitação
pág.s 125/126

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I - 6. a praia tem a neve as impensáveis (6 de 7)

Jim and Maria Bliss

Jim and Maria Bliss

 

6.

a praia tem a neve as impensáveis
amarras da brandura
aí sofro o teu nome por amor das
divisões sonoras
o mar dobra os lençóis sobre
doirados lábios e
a nudez talha no ar
os seus vestidos

 

in «Poemas», Visitação
pág. 126

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I - 7. despede-te do poema. (7 de 7)

Alcides Baião, Tosca, 1999

Alcides Baião, Tosca

 


7.


despede-te do poema.
teu cheiro sabe a mal cumpridos leitos.
o vidro do convés já não suporta
esse fingido gume.


larga esta humidade.
apaga estas palavras.

 

in «Poemas», Visitação
pág. 126/127

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