já folheias o corpo as folhas mudas

Cayetano Arroyo

Cayetano Arroyo

 

já folheias o corpo as folhas mudas
com a mão no silêncio me descobres
e me tomaste todos os sentidos
ó insensato ouvido


pois em folha te deito lençol leito
no coração da trégua te desenho
serás amanhecendo uma outra letra
ó demorada boca


já tudo te permites mesmo o espanto
da cor inesperada que tiveram
por um momento as tuas mãos em vidro
irreflectidas


visto melhor verás o prateado
reverso da floresta
e o amor que permites nele inscrito
ó cautelosa gente


in «Poemas», A Pequena Face
Pág. 178
 

não são as luzes nem os animais

Cayetano Arroyo

Cayetano Arroyo

 

não são as luzes nem os animais
o esplendor
nem as mudas palavras onde a voz
difusa se separa


caminharemos juntos à água, até
ao recordar dos promontórios,
ao olhar
a invenção do inverno


e recolhidos 
no brusco ardor dos
anos breves


ouvindo cintilar
a frívola passagem
dos sinais


in «Poemas», A Pequena Face
Pág. 176

esta esquisita prova me tentou

Cayetano Arroyo

Cayetano Arroyo

 

esta esquisita prova me tentou
de tecer um rumor em muros de água
ossos de terra calcinada
o jugo


culpado me castigo com engenho
e da voz desenhada o artifício 
restos de pele antiga
no laço da armadilha


em silêncio me muro e me demoro
no cálculo de rotas inexactas


em duro arbírtio quer que me desprenda
dos cinco ou mais sentidos
vou ser livre na terra desnudada
vou dizer o que sei como quem mente.


in «Poemas», A Pequena Face
pág. 177

em folhas de acetato me proteges

 Aleksander Nykolai, Ad Memento

 

 

em folhas de acetato me proteges
floresço em avenida litoral
breve serei semente um céu e a terra
plantado azul e sopro de marés

 

as palavras fechadas com o jeito
que a boca tem ao ver-se
retratada
quase um sabor razão acidulada

 

me persegues de nomes, me retratas
igual ao branco hotel onde regressa
a não lembrada sombra do verão

 

e pousam de ouro em água o só
engano breve
das rosas e da neve despertadas.

in «Poemas», A Pequena Face
pág. 184

Índice de «Poemas»

recuso ver que face

Arquer Buigas
 

 

recuso ver que face
na tua face a tempo pousa
o agrimensor
da sombra


ouvir que voz repete
a tua voz dormida
junto ao pão
os instrumentos


talhados sobre
a boca


na água viva o sopro
alvoroçado

 

in «Poemas», A Pequena Face
pág. 177

Índice de «Poemas»

«- Índice da Obra de António Franco Alexandre