estes pequenos animais, a terra

Jim Warren, Space games

 

 1.
 

estes pequenos animais, a terra,
como os esquecerei? neles acordo
a cor (decerto azul) de uma canção


de céu e barro, barro e céu, somente
em rigoroso gesto dedilhada. uma ferida
antes de mim me ocupa


os sentidos, como dedos de uma mão.
secretas cordas da viola, o corpo
como vos misturei ao ténue sopro

 

azul de uma canção? talvez
morrer seja o acorde de um harmónio
absorto na canção.


nas luzes planas além do aeroporto
ardem douradas chamas, mas da imagem
não ficará decerto outra memória


que a ténue melodia dedilhada
quando era noite, ou dia claro, e céu
e barro e barro e céu somente


o sopro nas secretas cordas preso
e o relâmpago breve da canção, mas nunca
dirás da terra os animais, a lisa


memórias dos sentidos, que demora
a água em sua queda, o chão das chamas,
o inacabado harmónio da paisagem.


não mais que o dedilhado vão acorde
de céu e barro, barro e céu, dirás
como um terrestre, adormecido harmónio


absorto no decline da canção.

 

 

in «Poemas», Duas Canções

2 - Cristal de azul, chamado

Bergkvist Linda, Songs Under the Apple Tree

 

 

Cristal de azul, chamado
pela canção das asas,
um novo dia pousa sobre as casas; tu,

 

coração, de pássaro fulgindo,
corpo do bem-amado
amor que abre na noite o arvoredo. em fogo,

 

oculto em luz, agora
quem dera ouvir a fábula, o enredo
a rede que nas horas se desprende.

 

em minha mão humana
não pousam, que passavam, os cantantes
nomes vivos das aves. erguer-me:

 

em claridade voas. terra
a nenhuma memória subjugada, chama
sulcando o ar, que fontes

 

de bruma incendiadas levantaram
a simples medida do teu canto?
neve

 

alada,
ouvir sem voz o vivo vento, corpo
de melro ou cotovia ou nome absolto

 

no espaço de ar, a vibração da cor;
ou santo colibri, volátil signo;
ou palavra de cego acorrentado;

 

que luz, em tuas folhas, te deu sombra
e harmoniosa, passageira concha?
que livre amor te inventa, derradeiro

 

sinal da noite ardendo em meiodia? ou tu,
eternamente repetindo o instante
em teu cinzel de azul nos desejaste?

 

nenhum secreto nome, nenhum mito
te habita rouxinol ou sapo aflito
mas o sopro da aurora nas colinas;

 

és, na ramagem, folha que contempla;
trapo de céu, ou rio que cegos vemos,
a transparência que o pudor vestiu.

 


in  «Poemas», Duas Canções, pág.s 235-236

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