5. eu a morrer debaixo do sol e eles sentados

Enrique Climente

Enrique Climente

 

eu a morrer debaixo do sol e eles sentados
apreciando coxas e mármores pendentes
no verão seco ao fim de nenhuma tarde, eu
desalinhavado pelo vento, crescido no meio das chamas,
correndo pelas ruas paralelas e sórdidas da antiguidade clássica,
e a agreste sabedorias das mãos cortadas rente eu e eles
apreçando o remate


dormindo dormidos nas esteiras, a corda
presa nos dentes. que surpresa quando me tomaste,
pela primeira vez era uma noite de algum vento e das
esguias chaminés subia a chuva como uma nuvem
caída na memória e para nunca mais
então acaricio-te as orelhas distraídamente como quem
está duvidoso de comprar e sabe que não deve
apressar o remate


eu a morrer como se fosse coisa nenhuma cheia de pressa
esmorecida pelo sol eu e eles sentados como se fosse
uma pressa vazia de coisas uma opressão às portas
do grande mercado demasiadamente silencioso e atento
acaricio-te as mãos bem cortadas, o reflexo do
melhor mármore antigo,
eu a morrer como se fosse o menor preço e eles
sentados com os olhos na cara a boiar!


in «Poemas», Dos Jogos de Inverno
Pág.s 246 e 247
 

8. agora estou na beira do penhasco e não vou voar

Carter Kelly, Ghosts of Atlantis

  

 
agora estou na beira do penhasco e não vou voar
como o sublime bicho estratosférico brilhante
de plumas esmeraldas tentativos braços
apenas eu baço de nenhuma asa debruçado
sobre o vidro de água e em baixo
os corredores, dispostos à partida
em músculos compactos, e deles o mais jovem (vestido


de improváveis azagaias) exclama: é esta
a fonte do trovão!, e aponta
um buraco azul mudo nas paredes da pedra. por fora
de mim regresso ao som silencioso da cidade
onde todos os rostos são o papel com linhas de inventário
e as patas dos homens pousam na larga secretária
e ficam, em relevo, caminhando no sangue. e eu queria
para ti, uma cidade sem mistério,


o gelo transparente onde mergulha a imagem
dos corredores, lançados no velocíssimo sossego sem repouso
das palavras trocadas, das bocas e dos braços misturados
pela luz, que é uma areia movediça,
este saber de nós sem ócio e sem negócio, iguais
às portas do trovão, onde o mais sábio
se lança nu compacto deus do fogo e ri

 


in «Poemas» Dos Jogos de Inverno, pág.252

por esse caminho vais dar a um ribeiro

 Bernard Cathelin

 

 1.
 

por esse caminho vais dar a um ribeiro
oculto nas pedras, e daí são dois passos pró inferno!
fiquei surpreso com a informação, assim da cara nua
à saída de casa, pousando a mala azul já encharcada,

 

como se houvesse destinos nesta terra! encolho os ombros,
as borboletas mudam de cor, gigantescas, violeta castanho,
tudo é real e diferente de si, mesmo as anénomas
e o cheiro de morte  que deitam por dentro. os planetas,


acredito, emitem pequenos sinais, mas tenuamente
deitam-se no ovo oco do céu,
e a grande chuva entra-me pelo corpo e fica
dentro a chover, coisa inútil, intensa.


foi assim que aprendi que os homens morrem aos pedaços,
e muito antes de eu nascer já esta torpe história seguia
«o seu rumo», aqui e além facilitado pela chacina militar,
e ninguém pedirá a minha opinião, que não é nenhuma.


o poema traz consigo um fresco calor escuro,
é um pouco cão, miserável e mudo.
os fios eléctricos atravessam a rua, lado a lado; o cigarro lançado
ao ar, explode contra as folhas.


dorme comigo, ribeiro seco.
deita-me na lisa pedra que te encerra. tudo começa
no cais de água nenhuma; um pouco cão, mais nada:
a arte do soneto e alguma rima.

 


in «Poemas», Dos Jogos de Inverno

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