Aprender com as palavras a substância mais nocturna

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© Peter Dove, M31 Andromeda galaxy

 

 

Aprender com as palavras a substância mais nocturna
é o mesmo que povoar o deserto
com a própria substância do deserto
Há que voltar atrás e viver a sombra
enquanto a palavra não existe
ou enquanto ela é um poço ou um coágulo do tempo
ou um cântaro voltado para a própria sede
talvez então no opaco encontremos a vértebra inicial
para que possamos coincidir com um gesto do universo
e ser a culminação da densidade
Só assim as palavras serão o fruto da sombra
e já não do espelho ou de torres de fumo
e como antenas de fogo nas gretas do olvido
serão inicialmente matéria fiel à matéria

 

 

in «Antologia Poética» ,
O LIVRO DA IGNORÂNCIA (1988) 

«- Índice da Obra de António Ramos Rosa>