
H. Bosch, Garden of Earthly Delights (center panel), 1504
Museo del Prado, Madrid
O desejo do início e do silêncio
para que o instante seja a fábula do instante
O silêncio para dizer as palavras anteriores
É o centro talvez a suspensão a perda
o fundo: a ausência de cor
fundo incessante que procuro defender
do assédio do sentido contra
as presenças acidentais e a agitação da superfície
Sigo-lhe a curva oculta até à interdição:
Como transpor a parede circular
das coisas?
Lá fora a forma opaca
e provisória do ar as mesmas marcas
coloridas a distraída escrita
do acontecimento. As pessoas passam
e a árvore negra na curva , o céu oblíquo
Um olhar geral penetra-me e na ausência
de uma perspectiva já não sou
uma visão do mundo mas a subterrânea
corrente das intensidades do desejo
Aqui reina a imagem de um olho global
e é aqui que invento a metáfora da Figura.
in «Antologia Poética»,
FICÇÃO (1985)
