A (I)LEGIBILIDADE DO LIVRO

 
Cinzia Ryan, Radiance IV

 


O livro está aberto e há demasiada luz.
     Tudo o que escreves está contido nesse livro de letras brancas como a tua morte.
     Será possível ler o sol e o silêncio desse livro branco eternamente branco e silencioso?
     Como conter a ávida necessidade de devorá-lo como se o livro pudesse matar-nos a irredutível fome de uma linguagem legível e luminosa?
     Estamos perante a impossibilidade de ler por um excesso de luz que é a um tempo a nossa morte e a improvável possibilidade de escrever o que não vemos, de ler o que não lemos.
     Devoramos o livro e com os olhos cegos de brancura transformar a impossível leitura na escrita de uns signos imediatos que nos devolvem a linguagem da luz apagada pela luz. 

 

 in «Antologia Poética», 
QUANDO O INEXORÁVEL (1983)

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