Um Caminho de Palavras


© Sheila Wolk, Day Surrendering Unto Night 24x30

 

Sem dizer o fogo - vou para ele. Sem enunciar as pedras. Sei que as piso - duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho e descubro o meu caminho. 

 

    Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras

 

 

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

 

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-se sol porque o sol existe

 

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.


in «Antologia Poética»,
SOBRE O ROSTO DA TERRA (1961) - pág. 67 

«- Índice da Obra de António Ramos Rosa>