Para um amigo tenho sempre um relógio


Ben Shahn

 

 A João Rui de Sousa


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
é um arco-irís de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

 

 

 in «Viagem Através de Uma Nebulosa»,
Ática Editora, 1960

o grito claro


Ben Shahn

  

De escadas insubmissas
de fechaduras alerta
de chaves submersas
e roucos subterrâneos
onde a esperança enloqueceu
de notas dissonantes
dum grito de loucura
de toda a matéria escura
sufocada e contraída
nasce o grito claro 

 

 

 in «Antologia Poética»,
Viagem Através de Uma Nebulosa, pág. 41
Dom Quixote, 2001

Sujei o teu nome

Carlos Saenz de Tejada

 

 


Sujei o teu nome
para me libertar de ti
o sujo foi sombra
teu nome esqueci-o

 

O sujo era ferida
e eu falso cantava
Não reconhecia a minha voz
Ai que deserta liberdade

 

Preso de novo
que rede tamanha
de laços e vozes
Um eco talvez
Um eco incessante

 

 in «Antologia Poética»,
Viagem Através de Uma Nebulosa
Dom Quixote, 2001

Sílabas.

3D Pictures Collection 

 


Sílabas.
O álcool de dezembro é frio e rouco.
O cigarro amarga. É um cigarro clínico.
Sílabas.
Com sílabas se fazem versos.

 

O tampo da mesa é liso.
Uma colher é uma forma complexa
familiar e deliciosa.
Um copo é nítido
como um criado sem servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas sílabas.
O dinheiro à justa. A gola da gabardine
para tapar a nuca
e os ouvidos.
Sílabas.

 

 in «Viagem Através de Uma Nebulosa»
Ática Editora, 1960

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