o círculo de cal


Collection: Amazing Digital Art, 37

 

 

Lugar indecifrável       noite e mar
com que principio um não à morte no verão das veias
algo se rasga ventre e boca contra o vento
assalto às vértrebas no nevoeiro do promontório
língua ou boca que abro ao vasto círculo
âmbito do silencio branco       lugar mortal       oceano
um grito me percorre e rasga os olhos
a espuma verde o suor na boca a voragem do silêncio 

 

Nenhum lugar para a boca       rosto sufocado
palavra regelada       brancura escura
como romper o círculo de cal
como fundar o lugar do fogo silencioso? 

 

Seriam lábios, ombros, púbis e o rosto
no desejo liberto, mas
como libertar a mão
         e figurar o rosto
rosto sem lábios máscara do mar
ventre dos dentes putrefacção da pedra
inércia de ombros      obstáculo informe 

 

Apelo ao espaço às ervas do silêncio ao ar
As omoplatas cerram-se cerra-se o horizonte
É preciso que sulque a areia que uma sílaba trema
que se dilacere o espaço um corpo um ventre 

 

Que aqui não é o lugar
aqui não é aqui ou é a extrema cerração
Onde o verde nesta aridez do sempre?
                                    Mas escrevo
         abro um buraco na terra
afundo-me como um osso no silêncio dos ossos 

 

Supérflua pobre escrita inútil
precisava de garras ou de outra luta escrita
uma outra mão a outra mão que desescreve
que desespera e pulveriza e liberta o sentido

 

Libertarei a água desta pedra ou deste ventre
Gritarei gritarei sobre as formigas verdes
espalharei no vento nomes subversos
Consagrarei uma alta pedra a um silencio novo
Abrirei um olho na pedra um olho lúcido liberto 

 

Inventarei outra escrita entre os muros
Anularei a magia branca da esperança vã
Ó pedra verde ou por que não a vagina viva
a voracidade audaz de uma ruptura nova 

 

Onde os companheiros desta extrema terra?
Eu direi o ângulo do ângulo a assimetria das cores
a chama dos seios abertos dos corpos vivos
eu direi a vida do instante no instante livre
abrirei a clareira onde o rosto ama o silêncio
onde o silênco se ama e a terra se consagra 

 

E tu estarás aqui contra a morte
e contra a morte da linguagem morta
ouro novo do humor das árvores
cinema dos membros revoltados livres
cimo do chão repleto de amorosos corpos
subversiva ternura contra os aparelhos sinistros
e jovens jovens jovens com as armas do amor

 

in «Marcas no Deserto», 
O Círculo de Cal
Editorial Vega, Lda., 1980

A (IN)COERÊNCIA DO FOGO


© Steve Augle

 

O desenho a fogo: os dedos e o sopro.
As pedras soltas suscitam algo,
uma textura sem segredo, aberta.
Como se não procurasse olho: sempre o deserto?

 

O corpo e essa onda, essa pedra - é uma linha
e o tumulto dos músculos no mar
eis o desejo da perda e do encontro
contra a parede, contra esta página
                                          este deserto - o mar. 

 

O sopro do incêndio da folhagem
esta rasura
                          no raso da inércia
ó apagada força amor do mar deserto força

 

reúno ou disperso     pedras sobre o mar
ou pedras

 

Onde o corpo     onde o desejo
                                           perante o vento
a frágil força do corpo (aranha inerme?)?

 

Se eu soprar as vértebras do fogo aqui
se subverter a folha e nu gritar

 

Eu continuo com estas pedras no deserto - no mar?
Nem são pedras estas pedras mas a garganta
enfrenta o vento - e o deserto,
que corpo que corpo se perde ao rés da página
ou terra?

 

Mas se não fosse o deserto - se fosse a praia
a música do corpo
e o vento no mar
e o teu corpo no meu corpo?

 

Mas tu esperas três palavras
três pedras
- e sem o fogo sem a folhagem sem o mar

 

Se um signo fosse a coluna do sangue
perante a maré perante o fogo
e não a morte cega ao vento
este silêncio contra o peito?

 

Escrever assim mesmo com os ossos
com a proa no externo
com a proa no externo
com as sílabas deserto

 

Mas se o silêncio da praia - onde o mar? -
o silêncio da página
suscitassem essa música do corpo
aqueles membros brancos
vermelhos
em torno ao centro - e a respiração do mar?

 

Um braço, uma torção do braço pela violência do vento
um cântico na praia
o corpo contra o corpo amante amado?

 

Uma sílaba apenas verde ou branca
e não o torso musical
e não a pedra do mar o esplendor da praia?

 

Ninguém ouve o grito sobre o vento
sobre o ventre de ninguém
nada se ouve entre estas pedras
nada é aqui neste deserto

 

Mas isto é, isto é, com se
um signo
fosse o sangue da lâmpada?

 

Desenho as formas vivas na areua
desenho este sulco no meu corpo
soçobro sobre o sulco - em frente ao mar?

 

Que corpo se levanta? É um corpo, um outro corpo?
Um corpo que se ergue sobre a espuma
ou um sinal apenas sem o sangue?

 

A boca morde os dentes
a página está deserta
a praia está deserta.

 

A minha mão ergue-se num sinal vão
como se não desistisse.

 

As pedras nem são pedras
mas palavras
mas o desejo de um contacto incandescente
mas o ardor de um persistente insecto.

 

Praia, mar, sulcos na areia, vento
ou só deserto
eu vos invoco e vos insuflo a chama
da garganta,
eu apelo para o cântico. Caminho?

 

Mais do que a sílaba do mar
mais do que a flor imprevista
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que a sombra sobre o ombro
mais do que o ouro da areia
eu subscrevo o branco       um novo corpo.
Ainda que nada veja senão as pedras
que delimitam o vazio
eu estou à beira de       eu sou o intervalo
entre a folhagem e o fogo
e o silêncio é um sinal
do corpo.  

 

*

 

Que diz a forma da pedra - o corpo?
Que diz este silêncio de erva?
Este punhal de feno no meu peito,
esta sílaba trémula, esta sombra fria,
que diz a cor do muro?

 

A terra tem aos ombros a folhagem
o mar ainda na distância
mas o clamor destes sinais proclama o animal
do fogo
os passos caminham entre as chamas e o apelo das ondas.

 

A terra é alta como o corpo e baixa
As casas cintiliam mas num contacto sólido
Em todas as estradas o sol caminha com os meus passos.

 

A folha é escrita como um paisagem
Ainda é o deserto e a noite é próxima!
Mas os sinais despertaram o lugar
onde o silêncio é a congregação da terra.


Escolho a clareira do corpo silencioso.


É um corpo que envolve o corpo.
Posso assinar o rosto deste corpo?
Os sinais sangram enfim e dizem terra.
Escrever é finalmente subscrever o ar
das ervas
e desenhar o sopro com os dedos: amar o corpo.
Amar. Dizer amar: amar o mar
na proximidade do próximo, no ombro
do teu corpo ou no parapeito da terra.

 

 

in «As Marcas do Deserto»
A (IN)COERÊNCIA DO FOGO , de  pág.27 a 41
Editorial Vega, Lda.,1980

«- Índice da Obra de António Ramos Rosa>