uma voz na Pedra


Want for Nothing

 

 

Não sei se respondo ou se pergunto

Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.

Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.

Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.

De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.

A minha ebriedade é a da sede e a da chama.

Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.

O que eu amo, não sei. Amo. Amo em total abandono.

Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta

                                                                          [nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em  mim.

Não estou perdida. Estou entre o vento e o olvido.

Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.

Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.

Sou alguem que espera ser aberto por uma palavra.

  

in Facilidade do Ar, 1990,
Antologia Poética

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