Assinalando a árvore a borboleta e os gatos


© Julio Segura Carmona

 

 

Assinalando a árvore a borboleta e os gatos

no amarelo fragrante e no silencioso redemoinho

com a saliva do calor e os escuros fragmentos

regresso à lentidão de um baile a violoncelo

tocado por um gnomo sobre um telhado de metal

trago uma lâmpada de orvalho para atravessar o abismo

e um pássaro adormecido sobre uma folha verde

Entre madeira e sombra, sob uma plácida lua

mobilizo os cristais nocturnos e as vespas azuis

entre as constelações que dialogam num tranquilo tremor

Sob as clavículas das árvores e copas flutuantes

enuncio a materna cascata e as metáforas que respiram

Movo a escultura do desejo na diagonal aspirada

e na fragrância do arco quando a consistência

é bondade que flui entre os cornos da dança

Atravesso os  murmúros disfarçados ou os símbolos

que alçam as lânguidas cabeças submersas

até que os signos os alcancem e os respirem

Rio nas pausas da harmonia e no incêndio das alfombras

escondo-me num olho e voo dentro da sombra

Nas nuvens passam touros brancos e águias verdes

Sedento movo as paredes na ternura da água

Aperto a suave madeira de um corpo e as suas cavernas vivas

enquanto deslizam as lentas estrelas sobre a água

Nos jardins minúsculos a brevidade e a delicadeza

Os conceitos suspiram entre a língua das flores

Guitarra e musgo e tempo acariciado

perpetuam o crepúsculo e a ausência de perguntas

Mulheres com sobrinhas descalças sobre a praia

o vento revolve-lhes as lâmpadas e as saias

Coloco a mão na âncora deste ritmo

O sangue penetra a garganta o sangue das flautas

e abre-se o tenaz labirinto voluptuoso

que é um orgão do sol e um violino da lua

De poro a poro, de poro a fruto, de fruto a estrela

uma águia enigmática desliza entre carícias

Perpetua-se o prelúdio da metamorfose da matéria

e o corpo saboreia o horizontal relâmpago

 

 

in As Armas Imprecisas, 1992,
Antologia Poética

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