Ouço o galope surdo do cavalo do sangue



Digital Art, 28

 

 

Ouço o galope surdo do cavalo do sangue

através do silêncio de uma montanha vazia

Estaria vivo ainda? O meu pulso é tão ténue

Sou alguém que perdeu o musgo fértil duma estrela

Sou ainda um felino com a boca fulminada

Quero converter-me numa serpente de sal

para adormecer no umbigo de uma mulher de quartzo

Sou alguém que quer criar a euritmia nupcial

com o sémen verde do seu sexo de argila

Inclino-me para a clareira vazia para purificar o meu

                                                                 [delírio

para encontrar as armas vegetais as armas nuas

entre diademas de areia e constelações de líquenes

Sigo as imagens da água na sua monótona fluidez

num ardor de silêncios de ténues florescências

e as minhas palavras tremem como arcos de água

e o meu pulso treme como  o pulso de um país

que de fragilidade em fragilidade vai singrando

rumo à linha alta do renovo

Sinto o bafo de uma boca amante

de um rosto de olhos claros de pastora

e o fogo de oiro do seu sorriso aéreo

de uma lealdade fluida e inicial

É o espaço é o horizonte é a estrela branca

é um arbusto selvagem rutilante

é uma rapariga numa torre de silêncio

é uma amendoeira num círculo vazio

Todas as imagens se reúnem numa gota de água

e é aí que eu nasço sobre o seio da terra

para descer para adorar com o sémen e o suor

a nudez de um corpo de flecha

entregue à sua vocaçã aérea mas fixo

nas suas espessas vértebras de argila

 

 in «Clamores»

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