Navegava no navio da matéria


Mark Gertler, The Bokhara Coat

 

 

Navegava no navio da matéria

a melodia da sede cintilava

sob o pólen branco do silêncio

Sobre o veludo unânime das veias

viu as corolas e os cálices dos fósseis

os pássaros de seiva

os diamantes de musgo

a voluptosa água da semelhança viva

 

O cristal da concha mais secreta

era negro sob a sombra ferida

e verde

e a sua língua era uma chama branca

aberta como um livro

 

Abeirou-se de uma crespa cabeleira negra

entre sumptuosas luas

viu as sinuosas artérias entre as asas de areia

a oscilação rítmica de um ventre

como uma lisa viola de coral

e bebeu a espessa água da profunda floresta

 

Na sua sede extrema na sua fragilidade pura

acariciava os veios dos astros vegetais

o flutuante tronco primaveril e arcaico

em que lábios adormecidos se ofereciam

num cálido sopro polvilhado de pólen

Era uma ânfora na duna era um barco fendido

de cintilante mercúrio

era uma ilha de pálpebras

uma mulher de flancos de nascente

e de câmaras de verdura

era a lenta pátria da terra o continente azul

do silêncio do nascimento solar

para adormecer sem espelhos

aos rés do horizonte

 

 

in «O Navio da Matéria (1994)»

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