Não desisti de habitar a arca azul


Extreme Black Walpapers, 1 

 

Não desisti de habitar a arca azul

do antiquíssimo sossego do universo,

A minha ascendência é o sol e uma montanha verde

e a lisa ondulação do mar unânime.

Há novecentas nebulosas espirais

mas só o teu corpo é um arbusto que sangra

e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.

Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes

vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.

Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos

de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.

Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,

sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!

A minha vida é uma lenta pulsação

sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.

Há bois lentos e profundos no meu corpo

de um outono compacto e negro como um século.

Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos

a deusa da noite, sonâmbula, desliza.

Ao rumor da folhagem e da areia

escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arqitectura.

Prisioneiro de lonquínquas raízes

ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.

Vislumbro uma luz incompreensível

sobre os campos áridos das semanas.

Elevo o canto profundo do meu corpo

sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.

Escrevo como se escrevesse com os meus pumões

ou como se tocasse os teus joelhos planetários

ou adormecesse languidamente no teu sexo.

 

 

in «Três (1996)»

«- Índice da Obra de António Ramos Rosa>