Saúdo a tua sombra


Albert Bloch

 

Saúdas a tua sombra

na tua escadaria da noite

Enches os cântaros matinais

com a água azul das derradeiras estrelas

Preparas assim a coluna vertical do dia

mas tens de entrelaçar os signos do vento

e atravessar as silentes passadeiras da água

em que tens de dizer o que na língua oscila

como um talismã incerto que resvala na garganta

És tão anónimo que não sabes que pedra ou ramos hás-de

                                                                               [oferecer

aos vivos para que não se afundem num pântano

É então que inventas uma constelação em forma de barco

e regressas à rugosa identidade terrestre

 

 

in «A Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dionísio (1997) »
Antologia Poética

Já disse tantas vezes o que disse


Albert Bloch

  

 

Já disse tantas vezes o que disse

sem dizer o que agora não sei se vou dizer

É uma ilusão decerto aquilo que a palavra se levanta

e arde porque coincide com a substância real

Mas se a palavra não chega a ser uma evidência fértil

do mundo ela é a sede que inventa a sua água

e nós já não sabemos se a água é verbal ou líquida substância

 

O desejo procura a oportunidade de um silencioso enlace

com um corpo disperso mas de unidade vibrante

Esse corpo está no espaço disperso mas de unidade vibrante

mas nós temos os músculos demasiado rígidos

e a língua não encontra as vogais vivas do veludo do sossego

Era esse corpo que outrora os homens partilhavam sem

                                                                           [parti-lo

e de novo nasciam ao nível das virilhas e dos pulmões

 

Quando será o dia em que reconhecemos os rostos uns dos

                                                                        [outros

como frutos fulvos com os seus sulcos de sombra e a sua

                                                                [melodia de nascente?

É esta a comunidade viva com que sempre sonhámos

esta a glória a única da identidade comum

em que os sonhos esvoaçavam com sombras felizes

porque estávamos perto do mar junto de grandes girassóis

 

Mas o paciente escriba acaba por cansar-se

e desejar a presença actual de quanto ele projecta

num futuro possível ou improvável Ele volta-se

para a pura possibilidade de ser quanto deseja

para ser ele próprio entre o princípio e o fim

E como quem levanta um largo pano branco

para projectar uma imagem ou uma sombra

depõe a página sobre a mesa do vento

e escreve na violência da frescura estas palavras

Eu escrevo para que o universo diga sim no puro espaço

e esse sim ressoe no meu peito aberto

 

 

in «A Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dionísio (1997) »
Antologia Poética

 

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