
Albert Bloch
Já disse tantas vezes o que disse
sem dizer o que agora não sei se vou dizer
É uma ilusão decerto aquilo que a palavra se levanta
e arde porque coincide com a substância real
Mas se a palavra não chega a ser uma evidência fértil
do mundo ela é a sede que inventa a sua água
e nós já não sabemos se a água é verbal ou líquida substância
O desejo procura a oportunidade de um silencioso enlace
com um corpo disperso mas de unidade vibrante
Esse corpo está no espaço disperso mas de unidade vibrante
mas nós temos os músculos demasiado rígidos
e a língua não encontra as vogais vivas do veludo do sossego
Era esse corpo que outrora os homens partilhavam sem
[parti-lo
e de novo nasciam ao nível das virilhas e dos pulmões
Quando será o dia em que reconhecemos os rostos uns dos
[outros
como frutos fulvos com os seus sulcos de sombra e a sua
[melodia de nascente?
É esta a comunidade viva com que sempre sonhámos
esta a glória a única da identidade comum
em que os sonhos esvoaçavam com sombras felizes
porque estávamos perto do mar junto de grandes girassóis
Mas o paciente escriba acaba por cansar-se
e desejar a presença actual de quanto ele projecta
num futuro possível ou improvável Ele volta-se
para a pura possibilidade de ser quanto deseja
para ser ele próprio entre o princípio e o fim
E como quem levanta um largo pano branco
para projectar uma imagem ou uma sombra
depõe a página sobre a mesa do vento
e escreve na violência da frescura estas palavras
Eu escrevo para que o universo diga sim no puro espaço
e esse sim ressoe no meu peito aberto
in «A Mesa do Vento seguido de As Espirais de Dionísio (1997) »
Antologia Poética