As Palavras e o Desejo


Albert Bloch

 

 

Por vezes perdem a sombra

e rodam pálidas sem a seiva do vento.

Raramente vêm carregadas de frutos, de pedras e flores

ou apenas do seu silêncio de fogo.

Quando as línguas indolentes nos envolvem

na espuma das suas sílabas

é que os olhos do mundo nos olham através das imagens

e o enigma se aproxima silencioso e cúmplice

do nosso abandono deslumbrado

no volume côncavo do tempo.

Mas por vezes as palavras já não reflectem qualquer luz

e descem por escadas negras

até às primeiras águas e às redondas sombras

em que o silêncio é o puro silêncio sem imagens.

 

 

in «A Imagem e o Desejo (1998)»
Antologia Poética

«- Índice da Obra de António Ramos Rosa>