Almada Negreiros, auto-retrato em grupo
Chamo pátria de profundas veias
a essa relação viva entre os homens se ela houvesse
e não esta condição anónima de indiferença
e de vaga identidade flutuante
sem cúpula e sem os templos brancos
com jardins de um ócio voluptuoso
É por isso que estamos condenados
à solidão de não pertencermos à dilatada força
que constitui um universo e projecta um horizonte
de humanidade viva em floração unânime
Somos apenas cúmplices da nossa inabilidade
e dos ornamentos com que as revestimos
para parecer que somos e ser o que parecemos
Quem escreve procura abrir um espaço numa muralha
tão opaca mas tão vaga e cinzenta
que esse espaço imaginado de branca identidade
não é mais que um aceno à possivel liberdade
para além da sua glória profanada
in «Pátria Soberana seguido de Nova Ficção» (1999)
Antologia Poética
