A água tanto pode ser uma guitarra de indolência

 

Andreas S.

 

A água tanto pode ser uma guitarra de indolência
Como a agonia violenta de espumantes leões
Mas ela é sempre um ritmo fragrante um odor profundo
da penumbra insurrecta de uma garganta de pólen
Perante o mar a identidade desmorona-se e renova-se
Como se as grandes massas do universo irrompessem
da violência de um segredo de uma pátria insustentável
E quando se ergue como um tumultuoso túmulo
dir-se-ia que se arranca do centro ou que o expulsa
em ímpetos de uma violenta frescura primitiva
E é a sua agonia abundante no esplendor de um brocado
que nos bafeja a fronte e nos limpa o olhar
Mas à luz do poente a água é uma plácida
E melancólica cisterna no seu azul de planeta
e sempre a materna abundância do seu seio
nos reconcilia e retempera como se o seu corpo
fosse a fábula verde que regenera o mundo

 

in «Antologia Poética», O Princípio da Água,
Dom Quixote, 2001, pág 398

A plácida e monótona paciência da água


Alfred Thompson Bricher, By the Shore

 

 

A plácida e monótona paciência da água
é a redonda proa de um navio
que horizontal abraçasse o seu costado
em cintilantes circulos ou em leves anéis
Apaixonada irmã longínqua
o seu percurso não conhece a cinza
nem os escombros das sólidas construções
E é um móvel túmulo e um berço errante
em que a vida e a morte se consumam unidas
numa pátria de metamorfoses incessantes
Que em ti morre dura e vive a alva anónima
e respira um nome que é um suspiro de um beijo.

 

 

in «O Princípio da Água», 2000
Antologia Poética

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