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In O ARMISTÍCIO
Outono

Guilherme de Faria, paisagem outonal
Largo silêncio amadurece o Outono.
o coração das folhas em letargo.
de alcantilado bosque cai no sono
O parque. Modorra a luz no lago.
E a natureza ali rendida à calma
escuta, toda ouvidos num nenúfar,
rumores da Eternidade que a sua alma
Antiga toca numa cana-de-açucar.
in O Armistício (1985), As Estações
Poesia Completa,
Dom Quixote, 2007
Verão

Guilherme de Faria, O Vale
Eis o acórdão dos deuses que granjeia
Ao tempo torpe o ermo e faz correr
Prazenteiro o regato que chilreia
E entre bosque e mar, morno lazer,
de Apolo, o dedo mais rosado
No loendro delonga. Paz radiosa
De azul compacto e quedo só turbado
Por esse estremecimento cor-de-rosa.
in O Armistício (1985), As Estações
Poesia Completa,
Dom Quixote, 2007
Primavera

Guilherme de Faria, chuva da primavera
Vai Clóris pelo prado às flores inata,
Branca na brisa, veemente nas verduras,
Mostrando as cores que, no ovo de prata,
Da primeira manhã se uniram puras.
A luz a leva. De Abril festas flamíneas
Espalha seu curso de floridas pernas;
De andorinhas, cerejas e glicínias
Vai remoçando satisfações eternas.
Tempo de amor que ao chão arranca a rosa
E aves nos ramos musical desperta,
Ovário onde a semente jubilosa
Do incorruptível infunde a Primavera.
in O Armistício, As Estações,
Poesia Completa
Dom Quixote, 2007
Sete Motivos do Corpo, I
I
Não te importe, ó mortal, depois de morto
Desaparecer na curva do caminho.
Aqui és corpo: e injuriar o corpo
é pisar a sombra do divino.
Lúcida a carne, num fugaz milagre,
É de eternos assuntos a medida:
De ar, água, terra e fogo sumidade,
Lugar de amor onde se ganha a vida.
Se concorrem na alma embuste e danos,
O corpo em qualquer língua é verdadeiro.
P'ra que ao além não fie a Parca enganos,
Retrata-nos a morte em corpo inteiro.
Vem das estrelas o sangue que nos guia
E em amorosa perfeição na carne
Está toda a eternidade resumida.
Corpo! Sombra de deus. Simples verdade.
In o Armistício, Antologia Poética
sete motivos do corpo, III

Michael Parkes, Angel Affair
III
Com a paixão desconcerta o pensamento
E ama. É fisica a profundidade.
Inspira Vénus o desejo ardente
Para nos mover à ultima ansiedade.
Num ser univoco o amor enleia
Os corpos nus. Na área da magia
Rompe a brancura; e cresce, ao tempo alheia,
A onda do prazer, causa da vida.
Segura do infinito a carne aberta
Atrai o sangue que corre para a verdade
Procurando na jóia mais secreta
Do corpo a inicial da eternidade.
Um sol em agonia a tarde gera
E vai o espasmo ao mais fundo da alma
Buscar o grito casto que se enterra
Na terra fêmea e faz cair a máscara
Langues e lívidas esfolham-se então nos corpos
estrelas caídas no trono da loucura.
O sangue enrosca-se e faz sair dos poros
Um fumo de almas que mastigam nuvens.
in Armistício,
Antologia Poética
Sete motivos do corpo, V

Ferdinand Hodler
V
Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.
Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Sois, porém, as irreiais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.
Lá no fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura, o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.
Enleais, mas se enleadas,
Ó voluveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
- Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas -,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.
Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena.
Pois mesmo vestidas estais
Nuínhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.
Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transcendência.
in Armstício, Antologia Poética
