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in O DILÚVIO E A POMBA, 1979
Na Campa de Antero

desenho de Guilherme de Faria, o poeta
Poeta: acre silêncio a bramir versos.
Mais um trago de luz e fora mudo.
estampado em feixe de sonhos adversos
está nos impressos. Leiam-no. Contudo...
Corpo: salto mortal do tempo ao pó.
Alma: pescou-a Deus nas suas redes.
Versos: talvez... Mas que se visse só
dele ficaram os sapatos verdes.
in O Dilúvio e a Pomba (1973),
Poesia Completa,
Dom Quixote, 2007
A Ilha do Arcanjo
Maria Jesús Aguirre Eguiño
Eu vos direi da ilha que na dorna
do Arcanjo é eterna em chão escasso.
Fulva de gado ao dia. À noite, morna.
Embebida no verde. E o mar colaço.
Ilhado alumbramento em templo torna
a unção de contemplar. Um ténue traço
de garça entre a água e céu. A paz encorna
em lagoa e lavoura o tempo e o espaço.
Tanto silêncio confiado à luz!
Treme um nenúfar se um grilo tremeluz.
Caiaram o sol de azul os agapantos.
Na cevadeira a broa luminosa,
romeiros nos persignam com uma rosa.
Suas rezas joeiram pombos santos.
in O Dilúvio e a Pomba, 1979,
Poesia Completa,1999
O Dilúvio e a Pomba

Fire Dove
Nestes acuados finais de gasolina
que para arrastar as vidas inda escorre,
no modesto beiral de uma vizinha
uma última pomba me socorre.
Que arrulhas absurda columbina
numa réstia do tempo consumido?
De sossegos que em pastos de alma eu tinha
és o almo perdão de eu ter partido?
Dessa infância cabrês aqui voaste
posto que quanto eu queria ali me davam
dedos que dando seda ao teu engaste
no pendão do Divino te bordavam.
Se já a arenga dos finados nega
ao céu timbrar um arrulho numa telha,
parabólica e núncia na refrega,
Espírito Santo serás da minha orelha.
Minha mãe, minha mãe que à beira-mar
Aracne foste de santas bordaduras,
diz-me: este ermo e meigo marulhar
é paráclito da Páscoa que perduras?
Diz-me se este torcaz de sete dons
num ângulo de destroços sufocados
ganhei com asas de anjo em procissões
na Ilha dos meninos coroados.
Se da luz em que Mater acabada
minh'alma aleitas, tu me deste o grão,
fala: que aparelhada para o Divino
eu tenho as flores e o vinho em comunhão.
in O Dilúvio e a Pomba, 1979,
Poesia Completa
Falavam-me de Amor

Antonietta Raphael
Quando um ramo de doze badaladas
se espalhava nos móveis e tu vinhas
solstício de mel pelas escadas
de um sentimento com nozes e com pinhas,
menino eras de lenha e crepitavas
porque do fogo o nome antigo tinhas
e em sua eternidade colocavas
o que a infância pedia às andorinhas.
Depois nas folhas secas te envolvias
de trezentos e muitos lerdos dias
e eras um sol na sombra flagelado.
O fel que por nós bebes te liberta
e no manso natal que te conserta
só tu ficaste a ti acostumado.
in O Dilúvio e a Pomba, 1979,
Poesia Completa,1999
