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in A MOSCA ILUMINADA
Fragmentos de um itinerário, II
No sítio em que os Transparentes dão o nome de Terra à estrela cadente dos répteis repartida em calafrios pedestres, a árvore genealógica dá frutos de crianças estranguladas. Descender é transportar um cobarde adiamento que em nós se faz o deserto de poros que não deixa passar a vida. Os pais pagam as lições aos filhos para eles aprenderem a não ser deuses. Mas quando o filho descobre que o professor é o pai a espreitá-lo atrás de um cacto de dentes canibais, bate o pé e as batidas formam as sílabas do seu corpo sem peso. Porque a força da gravidade é a certeza antiga dos sáurios não poderem voar nos descendentes.
Falhámos todos em Cristo que infinitamente apodrece nos cromos domésticos por ter pai. Ter pai é ser-se abandonado. E a erva fantasma do muro ao abandono asfixia a pedra com a lenta almofada da sua sombra parasita. Agapanto de soluços abandonado entre o céu e a terra, floresceu Cristo parasita da nossa compaixão. Matéria irresponsável que não dá para fazer um deus. É certo que Cristo ressuscitou ao terceiro dia do seu remorso de não ter assassinado o pai. E só por isso é a pétala de um fugaz bimilénio na flor gigante de um centro que se perde em si mesmo como a luz.
Descender, descenda quem servir de escadote à autofixação dos cartazes que anunciam a sua vida. A minha vida não me foi anunciada. Comi-a até achar o seu sabor. Porque o sabor é a certeza daquilo que convém a cada um. Os que tudo envenenam com a sua vida amarga não têm paladar. São torres abandonadas pelos ascendentes que a elas pontualmente regressam para celebrar o baile anual dos morcegos. Acabo de vos descrever o historiador. Reproduzo-me, por isso, ao arrepio do tempo. Tudo começa no fim como o rio na foz que exige a nascente para que os passos sonâmbulos da água que se sonha um rio se despenhem nas passadas insones de um mar por sua vez modeladas por um outro fim que precisa desse andamento.
Por meus méritos de última, minha exasperação inaugural de derradeira, ascendi à origem dos que, disfarçados de soldados, juízes, vítimas, tiranos e sórdidos pedintes, julgaram burlar o tempo, fingindo preceder-me. Ergo-os, assim, do seu sono de múmias que dormem com os olhos abertos e detenho-os em pausas fosforescentes. Fósforos com que acendo o primeiro dia da criação dos antepassados, forjando-os num metal escolhido pelos feitos futuros.
ÁRVORE GÉNIOLÓGICA
Ángel Orcajo
Minha avó para me ensinar
a dar o corpo à fogueira
deixou-me a estrela mais triste
de ter sido feiticeira.
Meu avô do que era seu
deixou-me o pesado in-fólio
de tirar pombas da paz
da manga de um manicómio.
De meu pai que das sereias
foi cobridor português
coube-me em versos a fome
do lápis com que me fez.
Em Auschwitz paguei
com uma costela judia
as dores com que levantei
minha alva alvenaria.
Li no jornal o estupro
da minha infância alumbrada
ficou a perdida infância
mais minha porque rasgada.
Da cintura para baixo
queimaram-me em Hiroxima
deitou corpo a poesia
da cintura para cima.
Nisto minha mãe morreu
fez-se a dor mais espaçosa
para eu passar como um gato
entre danos de pau-rosa.
Nisto Tristão o setembro
afinal das minhas uvas
perdeu as asas faltou
ao nosso encontro nas nuvens.
Fabricantes do apocalipse
me foram rapando o cabelo
para me estamparem como um anjo
depenado no sétimo selo.
Tipografada pelas granadas
que compõem o jornal diário,
das guerras que não fiz fiquei
o suplemento literário.
À loucura dos ascendentes
magistrados de mim exposta
escapei num verso dizendo-me
que não era uma lagosta.
Sempre a escapar por um fio
de microfone fremente e canoro
por esse porta-voz vou caiando
a semifusas o corpo onde moro.
As facas com que me faço
já lhes perdi a conta
o meu maior invento
é nunca ficar pronta.
Mulher cargueiro em construção
de um marfim que só atinjo
na imensidade do não
aos ascendentes que finjo
não serem a pantomima
de um texto de passos, vário:
manuscrito de neblina
se o não leio ao contrário.
Verde trabalho frutal
de ascendente paragógica
antepasso-me É uma
árvore mais génio (mais) lógica.
in «A Mosca Iluminada», 1972
Fragmentos de Um Itinerário
Fragmentos de um Itinerário, I
František Kupka
Num dia demasiado raivoso para caber no zodíaco nasci a metade de um endecassílabo quebrado em dois. Tambor de ossos delirantes espalhei na cidade a notícia de um planeta puro como o hálito de muitas flores reunidas preparava um dilúvio de sonhos para desnudar as estrelas jacentes nas criptas dos nomes. Era a loucura de não nascer comigo. Sentados no sumptuoso acento da morte, os homens trocavam entre si as navalhas em código dos assassinos especialistas na vida. Tinham todos nascido pontualmente à hora da certidão de idade. Ou estavam pelo menos convencidos disso. Uma certeza que na caça aos fogos-fátuos do alfabeto atribui a cada um o mérito de pendurar à cintura o significado esperneante da vida. Uma cabeleira em acento circunflexo amortecia os sons pertencentes a outra idade que levavam aos sepulcros, salas da dança horrível das vogais sepultadas vivas. Constelada de calafrios recolhi-me à minha flor provocada pelos dias intensos em que me alcanço na radiosa capital dos inascidos: a luz da minha pele iluminada por dentro para gravar um canto. A educação musical dos girassóis que dá o meu hectare de realidade entre o ser e o estar põe a minha memória ao serviço da metade que eu fiquei por nascer. Trabalho urbanístico de esponja embebida na luz de um lugar achado pela técnica suavíssima do marfim de todos.
Alguns, por cardíaca aceitação do policiamento da porta que um cão de turquesas abre para o sítio onde vai ser a vida, chamam a isso poesia.
O nascimento do poeta

František Kupka
Ora foi num dia dia treze
que em seu bíblico lugar de dor
minha mãe deu por completas
as letras do meu teor.
Porque para acabar o mundo
era precisa a minha mão
desse azul calafetado
caí nas facas do chão.
Machucada de nascida,
da minha sofrida região
pus-me a levantar o mapa
em ponto de exclamação.
Assim na câmara escura
de cada privada saliência
meus olhos se revelaram
negativos da ausência.
Soube que o tempo é uma luva
anti-séptica que o infinito
calça para joeirar
sem contágio o nosso trigo.
Daí o amor ser o meio
do homem dividido em dois
e a pior metade é estarmos
à espera de sermos depois.
Soube que quando a amargura
nos gasta a pintura aparece
a cor que teriam os olhos
de um deus apócrifo se viesse
não refulgente ou teologal
tampouco suspensa espada
mas ocasional como vestir
uma camisa lavada
porque a vida é a ocupação
do único espaço disponível
para o possível amanhã
da nossa véspera impossivel
e o sidério, adeus mistério
é um queijo de paciência
para a gulodice da terra
(e não perdi a inocência).
Soube coisas que sabê-las
foi eu ir ficando nua
como no apocalipse uma última
pedra vestida de lua
como no fim do mundo um lírico
verme a recomeçá-lo
a beber estrelas e peixes
pelo seu estreito gargalo
como eu em amorosa
posição de cana erecta
a pescar no indizível
o sinónimo de poeta.
in A MOSCA ILUMINADA, 1972,
Poesia Completa
a defesa do poeta *
Albert Bloch
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto,
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantânio das coisas
apanhadas em delito de paixão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mã
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
in A Mosca Iluminada,
Antologia Poética
* Nota da Autora - Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.
