in MÁTRIA

 
  • Mátria I de XIII
  • Mátria II de XIII
  • Mátria III de XIII
  • Mátria I de XIII


    Justus Danckerts, Nova Totius Terrarum Orbis Tabula, c.1680
     

      

    I

     

    Combustiível a besta se incorpora
    no gesto e penúltimo o homem
    compenetra-se funcionário
    da sua adiada escória.
     

    Da bomba o guincho de giz
    ao quadro preto da memória
    pontos de sangue em nossos ii
    HISTÓRIA aos quadradinhos ora
     

    o bípede era uma vez
    não identificado objecto
    um não saber que fazer
    de não ser propriamente insecto
     

    com conta aberta em Andrómeda
    e uísque em Vésper por anestésico.
    Oh cosmonauta! comichão
    de não encontrares teu cemitério.
     

    Mundo imundo como o mundo
    homem bilião de formigas
    suando o cimento de cidades
    por mísseis interrompidas.
     

    Presente como lixo varrido
    pela vassoura do adiante
    pressa de mãos que estrangulam
    uma criança no volante
     

    homem como autopintado
    pelas trevas do teu ofício
    de te ganhares aos viciados
    dados de seres só homem por vício.
     

    Homem aflição de teres alma
    alma como pombo-correio
    que vem pousar na tua linha
    sem que tu saibas porque veio
     

    lógica como paragógica
    arrogância que rumina a ruína
    ardidas pinhas do pinheiro europa
    queimada lã da ovelha hiroxima
     

    fumegante palha da ásia
    na boca da mula américa
    rato da rússia roendo o mapa.
    Terra insolentemente esférica
     

    saibro da carne desvivida
    com que o homem seu sorriso faz.
    No mostrador das carícias
    falta um minuto para o caos.

     

    in «MÁTRIA», 1968
    Poesia Completa

    Mátria II de XIII


    Arturo Souto

     

     

    Entanto como dizer a pedra escuta
    ilha a morrer de fome rodeada de pão
    homem! quadrado da destruição
    que o círculo de madressilva embrulha.
     

    Do redondo da incriada mama
    o envolvimento de algodão escuta
    a árvore da vida que atravessa
    tua paisagem diagonal de fuga
    a limpidez da íris que peneira
    a serradura feroz da tua pressa.
     

    Como dizer o dentro o centro escuta
    o cálcio a letra a lã que recomeça
    teu acre exangue de minguante lua
    homem! oh precipício de apeado
    passageiro da mulher que continua.
     

    Mundo! mesa do céu bombardeado
    onde da multidão boca nenhuma
    saliva de carvão em cada uma
    já arrotas o fogo que roubaste.
     

    Órfão que és por teus espinhos contas
    as pétalas da mulher triangular
    com que formavas a estrela de seis pontas.
     

    Como dizer o estar que é o lugar escuta
    onde vão dar as tuas veias todas
    onde a noite e o dia têm contactos sexuais
    e começam as coisas a ser naturais
    despidas no espelho dessas bodas.
     

    Como dizer o brando o branco escuta
    o húmido alfabeto da novilha
    a que estás preso pela raiz de um afago.
     

    Cada mulher é uma cascata de trevos.
    nessa risada arredondando o tempo
    colhe um som    Por um trevo serás salvo. 

     

    in «Mátria», 1968
    Poesia Completa

    Mátria III de XIII

    Georges Malkine

    Georges Malkine

     

     

    Pontualmente uma árvore de ouro
    nasce onde o sémen do homem
    e o curso de água feminino
    se fundem e as sombras se somem.


    Verdura dos olhos de Anaíta
    por nossas carícias semeada
    que passeios de tílias nas cidades
    para a pureza do encontro guarda.


    Anaíta que a raiz do homem
    na terra da mulher prepara
    e as extremidades do mundo
    num ramos de amor ata.


    Anaíta que as árvores conhecem
    por seu nome próprio de mirtos
    e como risos as aves voam
    seu fresco bater de cílios.


    Matrona que à cabeça traz
    a abismada bilha dos espaços
    pomo celeste que se destila
    no alambique dos afagos.


    Anca do mundo requebrada
    estrela que guarda em seu lenço
    os beijos com que sopramos
    a nossa bolha de silêncio.


    Ouvido que o crescer dos abetos
    no bosque da cópula escuta.
    Mulher! oh rito de Anaíta
    mistério de ser virgem e puta.

     

    in «MÁTRIA», 1968
    Poesia Completa

    Mátria IV de XII

    Pére Pruna

    Pére Pruna

     

    Copenhaga lavando os cabelos
    na fonte do amor que  nascia!
    Os sinos da Trinitatis
    quatro açucenas batiam.

     

    Nevoentas maçãs abriam
    na laje as patas de Março
    com cornos de pássaros que vinham
    do Egipto derreter a neve.

     

    No quarto em quadrados de açucar
    nítido o amor se espalhava.
    Dentro do meu milho latino
    Lars Peters ria um riso de água
    que o fogo do tempo consumia.

     

    Folhas secas de Copenhaga
    ao vento que o adeus assobia!
    Os sinos da Trinitatis
    quatro açucenas mordiam.

     

    in «Matria»,
    Poesia Completa

    «- Índice da Obra de Natália Correia
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