in CÂNTICO DO PAÍS EMERSO

  •  «Tudo chegava pelo lado da sombra [...] seguido de: Numa praça sobre um palanque [...]»
  • Cântico do País Emerso I e II de VIII

Tudo chegava pelo lado da sombra[...]


Francisco de Goya y Lucientes,Tribunal de la Inquisición
Museo de la Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, Madrid, España

Retirado de Wikimedia

 

         Tudo chegava pelo lado da sombra, do terror, da pegajosa ignomínia. Os esbirros amordaçavam a luz. Com as mãos mergulhadas nas estrelas que escondia nos bolsos o poeta assobiava uma pátria de brancura e paz. E deu flor: um poema para ensinar risadas de camélias aos animais do medo. O poema foi arrastado para a treva onde os estranguladores da palavra constroem o silêncio da sala de espelhos onde o tirano se masturba. O poema atravessou o inferno e alguns dos seus sons ficaram queimados.

         Uma vez exalado o grito de libertação que fez entrar a Cidade no exercício dos seus timbales o poema pediu ao poeta que lhe arrancasse as suas folhas mais ressequidas e em seu lugar pusesse as gotas de água do canto que quer correr para a vida. E o poeta fez a vontade ao poema que queria cantar. E aqui e além o corrigiu dotando-o da actualidade que as máquinas do inferno lhe roubaram.

 

COMUNICAÇÃO

EM QUE SE DÁ NOTÍCIA

DUMA CIDADE CHAMADA VULGARMENTE

LUSITÂNIA

ATRAVÉS DE ALGUNS FRAGMENTOS

DOS OXYRHYNCHUS PAPYRI

 

INTERPRETADOS PELA AUTORA

QUE DESEJANDO JULGAR O SEU

TEMPO OUSOU LER NO PASSADO

A SIGNA DO PRESENTE

 

         Recentes escavações feitas no Sudoeste da Europa confirmaram a existência de uma cidade soterrada pelo prodígio diário de um lento e assombroso cataclismo.

         Dessa cidade - a Lusitânia - contam contos espantosos que uma mulher a quem chamavam a Feiticeira Cotovia foi condenada às chamas por práticas de uma magia maior e estranha a que ela dava o nome de Poesia. Pronunciada que foi a sentença a misteriosa e sereníssima criatura anunciou com a força coroscante de um fulmíneo augúrio: «O meu corpo em chamas será o rastilho de uma fogueira que consumirá a Lusitânea ano após ano, geração após geração numa combustão invisível e prolongada pela Palavra que fulge no Ponto onde todos os nomes se reúnem na Luz.» E a profecia fez-se lume duradouro porque aquele lume ardia sem matéria pois que era pura chama do Espírito. E os Deuses afagaram as suas pombas porque estavam contentes com o que a Mulher tinha feito.

 

 

Numa praça, sobre um palanque [...]

 

 

         Numa praça, sobre um palanque de carpintaria, encontravam-se milhares de pessoas. O PREGOEIRO lê o Auto da Feiticeira Cotovia.

 

 

PREGOEIRO

 

É o processo extraordinário
Da Feiticeira Cotovia
Que diz que as roseiras ao contrário
É que dão rosas e é que há poesia.

 

Que diz que é preciso olhar um lírio
Como quem não o está a ver
E que esse olhar é que é o círio
Do que está no lírio a acontecer.

 

Que diz que dá pinhas pela maneira
Como um pinheiro sem saber as dá
E que isto é que é ser feiticeira
E como o pinheiro nem boa nem má.

 

Que diz que o silêncio que só ela fala
Já foi, numa lira, a língua de um povo
De deuses que falam quando ela se cala
E na poesia começa de novo.

 

Que diz que a brisa que é a sua túnica
Sopra de futuros tempos luminosos
E que por ser todos é que ela é a Única
Até que os deuses saiam dos seu ovos.

 

Que diz que isto de uma nação
É um sítio flamejante e preciso
Para dizer que não e que não.
E se há nação é por causa disso.

 

Que diz que a fúria que se chama vida
É lutar, ferida da vida ser pouca
Com muitos milénios de alma decidida
Pela liberdade que é a luz na boca. 

 

 

CORO

 

Para os narizes porem em dia
Leram os anais da Inquisição.
Com tanto ódio à poesia
Ficaram todos cor de limão.

 

Ficaram hirtos ficaram sérios
Ficaram círios num velório
Ficaram lentos monges funéreos
Com as imagens por auditório.

 

Ficaram todos muito decentes
Ficaram lentes à moda antiga
Ficaram cara de dor de dentes
Numa atitude de dor de barriga.

 

Ficaram mortos sem cemitério
Sem se lembrarem de ter morrido
Lassos fantasmas do podre império
De já não sermos por termos sido.

 

Quando chegou a Cotovia
Vulto de vento alto e cantante
A Assembleia ficou mais fria
O presidente mais rapinante.

 

«Esse gorjeio é bruxaria
- uivou um lobo do Santo Ofício -
Metam a ave na enxovia.
Cantar é crime. Voar é vício!»

 

 

         Trazem a FEITICEIRA COTOVIA: Fazem vestir à ré, sobre o sambenito, labaredas de serge vermelho cosido por cima. Se as provas do crime forem insuficientes, as labaredas serão substituídas por uma cruz vermelha de Santo André e a sua vida será poupada.

         O INQUISIDOR ocupa um púlpito alto, em frente de um altar paramentado. No lado esquerdo do altar estão sentados os SETE JUÍZES.

  

 

INQUISIDOR

 

Confessa que és uma harpia
Que tens comércio com Vénus
E que és o leito de orgia
De poetas obscenos.

 

Confessa que és o poente
Dum país que não existe
E que andas muito contente
Quando deves andar triste.

 

Confessa que a tua raça
É a erecção do membro
Dum rapaz que dança a valsa
Com as bacantes de Setembro.

 

Confessa que és Afrodite
Na Grécia pestilencial
Do teu ventre estalactite
Do pecado original.

 

Confessa que um faraó
É o teu rosto de lado
E que andas contigo só
Na rua de braço dado.

 

Confessa que houve Platão
E houve Hermes Trimegisto
E a tua danação
É brilhares por causa disto.

 

Confessa que és a Sibila
Com bico de rouxinol.
Seguem-te dez cães de fila
Que são dez raios de sol!

  

 

         Começam a depor as tetemunhas: a primeira é uma SOLTEIRONA arreitada de luxúria e escumando pavor.

 

 

A SOLTEIRONA

 

Fez uma magia
Sobre a minha telha
Um pénis que ria
Entrou-me pela orelha.

 

Em insónias roxas
Vigílias de lama
Arderam-me as coxas
Nas brasas da cama.

 

Deu-me um lírio preto
Como um diamante
Era um amuleto
Para eu ter um amante.

 

Deu-me duas asas
E disse-me assim:
«Já que não te casas
Vai ao teu festim!»

 

Deu-me o evangelho
De todo o pecado
Num ventre vermelho
Sensualizado.

 

Pôs-me num bordel
Com cem meretrizes.
Meu corpo de mel
Fazia-as felizes.

 

Passei por Sodoma
Na cama de um Bórgia.
Nas ruas de Roma
Deitei-me com a corja.

 

Num cais de Marselha
Quis um marinheiro
Fingi que era velha
Para lhe dar dinheiro.

 

Tomei cocaína
E levei pancada
Vi uma menina
Comi-a à dentada.

 

Com a chicotada
De tanto veneno
Fiquei transformada
Num gesto obsceno.

  

 

         Dando sinais de grande agitação, a FEITICEIRA COTOVIA interrompe o depoimento, protestando.

 

  

A FEITICEIRA COTOVIA

 

Dei-te uma canção como um fruto aberto
De mulher em arco na proa de um barco
De relincho e feno de flor e de insecto
Que pousa na flor e fica casado.

 

Passou um amante no voo directo
Dum corpo para a sua constelação:
Com pena de ti roubei-lhe o trajecto
E pus-te uma pomba de amor na mão.

 

Mas pela espiral da antiga insónia
Girou a voluta do crime secreto
De seres cortesã numa Babilónia
Que fechas à chave para ficar mais perto.

 

E pelos abismos do teu ventre orgíaco
Errou o remorso da raça cobarde
Que nos abortou no círio elegíaco
Da nossa perdida Sodoma que arde.

 

 

 

INQUISIDOR

 

São vinhos vulvas venenos
São pernas com meias pretas
São os postais obscenos
Que fechamos nas gavetas.

 

São as vigílias venéreas
Com que o demo nos ateia
Um cio imundo de feras
É Judas na Santa Ceia.

 

É o porco marfim nos dentes
De um elefante de impudor.

 

  

OS SETE JUÍZES

 

Mas sejamos clementes
Como foi Nosso Senhor!

 

  

INQUISIDOR

 

Proponho pela santa fé
Que acenda a chama divina...

 

  

OS SETE JUÍZES
 

Tem direito como ré
Às demoras da rotina.

 

  

INQUISIDOR

 

É  um vendaval de serpentes
Um ciclone de flores medonhas...

 

  

OS SETE JUÍZES

 

Sejamos benevolentes
Ouçamos mais testemunhas.

 

  

         Entra um PADRE com a alma pela mão. Vem dançando, fazendo a caixa com a boca e, acabando, diz o

 

  

PADRE

 

Com as cores dum arco-íris
E uma cadela vadia
Fez uma harpa para Osíris
Me embruxar a freguesia.

 

Com o azar dum dia calisto
E com o vício do tabaco
Arranjou forma de Cristo
Ser outro nome para Baco.

 

Ergueu a Virgem sentada
Pôs-lhe tranças de sereia,
Penteou a Imaculada
Com o pente de Astarteia.

 

Com a sombra de um enforcado
E afagos de beladona
Deixou um santo corado
Com tanta pouca-vergonha.

 

Com os filtros da Medeia
E um cu a fazer de altar
Tirou Jesus da Judeia
Pô-lo na Grécia a bailar.

 

Com um cheiro de rosa-chá
E uma lagarta com cio
Organizou um sabá
Que durou todo o estio.

 

Com o signo de salomão
E Vénus no perigeu
Fez tocar a São João
A lira que era de Orfeu.

 

Com um esqueleto calçado
E um bicho de vinte patas
Fez com que o Crucificado
Piscasse o olho às beatas.

 

  

         A FEITICEIRA COTOVIA procura esclarecer a confusão que o seu canto lançou no espírito da testemunha pelo que se pronuncia sobre a mesma matéria.

 

 

A FEITICEIRA COTOVIA

 

Se a cabra em cio executa
Seu repertório de sol
Se a vida é agora ou nunca
Tanto faz Krisna ou Apolo.

 

Se a vaca é lua que munge
E a rosa é um dos desenhos
À pena que faz a luz
Tanto faz Maria ou Vénus.

 

Larga o corpo uma gazela
Que parte em busca de um deus.
Se a alma é partir com ela
Tanto faz Jesus ou Zeus.

 

Vai chegar o meu amigo
Traz uma pinha na íris
Se a pinha é vir ter comigo
Tanto faz Baco ou Osíris.

 

Se a vida é nos seus excessos
Esperar o deus que entrará
Por uma rosácea de versos
Tanto faz Buda ou Alá.

  

 

        Entra o PATRIOTA. É um marechal, com o seu hábito e capelo e gorra de veludo e luvas e espada dourada, fazendo meneios de mui doce cortesão.  Vem numa cadeira de rodas, empurrada por um landim de estatura colossal.

 

 

O PATRIOTA

 

Da água negra da sua boca
Saíram vespas víboras sapos
Sairam pedras de luas loucas
Que iam fazendo a pátria em cacos.

 

Saíram versos que eram moscardos
E a Lusitânia era um um brasido
Uma geografia de petardos
A rebentar-me no ouvido.

 

Era uma Inês nua, impudente
Nos olhos de Pedro desenterrados
E nos painéis de São Vicente
Enlouqueciam avós pintados.

 

Eram moinhos blasfemantes
Moendo memórias exaltadas
E pelas lendas dos navegantes
Rolavam cabeças ensanguentadas.

 

Era, bêbado até cair
Camões num bar mal-afamado
Cantando os Lusíadas do porvir
De um Portugal sem altar nem Estado.

 

Era o salão do manicómio
De Mário de Sá-Carneiro
E a feiticeira como um demónio
Dançava a Pátria com o Junqueiro.

 

 

       Estupefacta a ré protesta a sua inocência fazendo ouvir as palavras que, por amor do seu país, juntou na música rebelde de um poema.

 

 

A FEITICEIRA COTOVIA 

 

Ser navegador... Ser navegador
Não é termos sido é sermos ainda
É irmos a Vénus ou seja onde for
Espetar os cornos onde o espaço finda.

 

É haver Camões como uma revolta
E haver Gil Vicente como um desafio
A esse Encoberto que nunca mais volta
Porque é o pretexto do nosso vazio.

 

É Vasco da Gama mas sem biografia
Que sem biografia a lenda é o impulso
Da raça que cumpre a mitologia
De mares que lhe batem bêbados no pulso.

 

É ignorar que houve Aljubarrota
Porque Aljubarrota é ignorar;
Ser múltiplo e idêntico como a poliglota
Prata que na noite espalha o luar.

 

É a liberdade como a luz para onde
Fugida do frio voa a andorinha.
E o povo é a sede e a pátria é a fonte
Trabalho de sangue que não mais termina.

 

  

OS SETE JUÍZES

 

Está o processo encerrado
Com o selo da evidência.
É treva é lodo é pecado
Noite de amor. É doença.
 

Inútil a tolerância
Que o Santo Ofício empregou
A seu favor só uma dança
De flores ébrias invocou.

 

Decorreu a audiência
De modo a que o Tribunal
Ficasse com a consciência
Límpida como um cristal.

 

Pois a terra inteira ouviu
E há o Céu por testemunho
Que a bruxa se conduziu
Como uma brisa de Junho.

 

Em estrofes de podres limos
Numa língua enfebrecida
Aos seus filtros, aos seus crimes
Chama paixão, chama vida.

 

Quer no Código Penal
Quer nos nossos Livros Santos
Só a pena capital
Pode quebrar-lhe os encantos.

 

É relapsa a feiticeira
É réproba e é herege
É um caso de fogueira
Se há um Deus que nos protege.

 

Que a labareda penal
Como o despontar do dia
Seja a pia baptismal
Que a lave da heresia.

 

E enquanto a chama lhe acalma
O demo que traz nos ossos
Rezemos pela sua alma
Quatrocentos padre-nossos.

  

 

       Aplicam-lhe no sambanito o retrato da relapsa cercado de figuras de diabos. É o selo da condenação às chamas. De pés descalços, a cabeça descoberta e um círio na mão, A FEITICEIRA COTOVIA é conduzida a um poste onde a amarram e à volta do qual estão empilhadas medas de achas. Apenas na noite convulsa crepitam as primeiras línguas de fogo, da boca da mártir sai uma profecia como o raio sai do sol.

  

 

A FEITICEIRA COTOVIA

 

Se a palavra poderosa
Ilumina o que é vedado
Há-de abrir-se a brusca rosa
Do que está vaticinado.

 

onde não soube a cidade
Merecer a alma que tinha
Num espasmo de carvões há-de
Ter na cinza a sua sina.

 

Como a Virgem dos Destroços
Que é o luar das ruínas
Plantarei florestas de ossos
Onde eram Sete Colinas.

 

Vou joalhar no ourives
De um áureo tempo futuro
O poeta que em mim vive
Como um gato no escuro.

 

Pela peregrinação
Dos nervos de Fernão Pinto
Vou partir no galeão
Que falta do nosso instinto.

 

Vou pelos campos de linho
Do Poeta D. Dinis
Atirar a flor do pinho
Que onde cai é um país.

 

Vou por tardes de alecrim
Unir em saltos de corça
A abelha Bernardim
Com a rosa menina e moça.

 

Eis-me nua e salamandra
Enchendo a noite de jóias
Trazendo como Cassandra
Um diadema de Tróias.

 

Nossa Senhora Astarteia
Com seios como damascos;
Pancada de lua cheia
Na fronte dos meus carrascos.

 

 

 

       Convertida numa estátua de chamas, A FEITICEIRA COTOVIA faz descer com a vara fremente da sua profecia o fogo do céu à terra. As labaredas correm dementes pela cidade semeando dolorosos campos de cinza. E tombando-lhe a cabeça entrega a semente do seu espírito aos ventos onde canta a vontade do REI DA LUZ para que os zéfiros novamente lancem na terra a Palavra que faz germinar a Cidade dos Homens Radiosos.

 

 

CORO

 

Como um poente congestionado
De vaga-lumes irreais
É o sete-estrelo desenfreado
Rosa de chamas descomunais.

 

Saltam-lhe os pulsos como foguetes
As mãos são Vestas embriagadas
Parando as cenas dos banquetes
Em saturnais cabornizadas.

 

Incham-lhe os seios como mechas
De Salomé desintegrada
Por quem cem lírios lamechas
Ficam ardendo sem dar por nada.

 

Uma manada de trovões
Leva a cidade nos seus cornos
Assam burgueses nos salões
Como perús dentro dos fornos.

 

Os redonduchos anjos das casas
Expiam crimes ancestrais
Mamando restos de leite em brasa
Nos esqueletos maternais.

 

As salamandras uterinas
Queimam devassos nas suas camas
Com quem celebram fesceninas
E derradeiras núpcias de chamas.

 

Os académicos no espeto
Fazem um esforço de memória
Para manterem o esqueleto
Em andemanes de oratória.

 

Em catedrais de mil archotes
Numa luxúria de extrema-unção
Um frenesim de sacerdotes
Tem um orgasmo de Inquisição.

 

As labaredas quais proxenetas
Dos cidadãos mais importantes
Levam incêndios de meias pretas
A mercadores de diamantes.

 

Logo que estoura algum ministro
E a sua alma estruma os campos
Rebenta um trigo mais sinistro
Nesta seara de pirilampos.

 

Nos semicúpios incandescentes
Dos seus tesouros derretidos
Os milionários têm repentes
Têm remorsos de homens falidos.

 

E um Desejado de lua nova
Noivo da Pátria vem finalmente
Buscar a noiva para a sua cova
E dá-lhe a Morte como presente. 

 

 Transcrito na íntegra de
Cântico do País Emerso
Poesias Completas

Cântico do País Emerso I e II


Martin Heade, Brazilian Forest, 1864
Museum of Art, Rhode Island School of Design

 

I

 

ENQUANTO que no mar das Caraíbas
Os albatrozes os peixes-voadores
Os sargaços a bússola a espuma
E a nossa senhora dos Navegadores
Se punham ao serviço de uma
Nação acabada de nascer,
 

Terra transportuguesa de longo curso
Onde os homens andam de tronco nu
E a barba produz ardor como a urtiga
Onde o instinto lê no voo das aves
Como uma sibila e o medo é abandonado
No país das sombras do urubu;
 

Terra onde as decisões têm a rapidez
Do leopardo e a fome desenha no ar
Uma hipérbole arquejante; terra onde
A fraternidade é rude como a flor do cardo
E os homens usam a alma como um instrumento
cortante;
 

Terra onde por enquanto não há
Encontro às seis horas no bar
Nem estilo de vida nova-iorquino
Nem razões para um homem se casar
Nem o fim-de-semana arrebaldino
Onde não há vivendas para alugar
Com cadeiras de verga sobre a relva;
 

Selva atónita ainda pela desfloração
O violento estupro dos machados
As panteras tensas da iniciação
O batuque dos seus sentidos alterados
Os tigres encolhidos da contracção uterina
Os gamos assustados dos seus peitos
As gazelas da sujeição à força masculina
E o elefante sossegado dos instintos satisfeitos...
 

terra saudada ainda pelas
Estrelas-do-mar e outras estrelas
Meninas dos olhos dos marujos
Extasiados do avesso sempre
Que um português se fez ao mar
Não para descobrir a Índia
(Isso era o começo de um mundo
Com ondas por fecundar) mas
Para fazer um filho às vagas
Fêmeas de gosto salgado e de ancas
Largas. Mulheres que aderem à pele
Como a salsugem. As únicas
Que verdadeiramente se estorcem e rugem;

 

II

 

ENQUANTO que o Navio-Nação partia
Do Cais Anterior      Cais Poesia
Rosa de místico continente
Aberta em tua geografia,
Fernando Pessoa, cais evanescente
Praça pública onde batia
O coração de toda a gente
Celtas fenícios árabes e godos
Que vieram passar aqui o Verão
E como o  clima é excelente
Tomaram, a britânica decisão
De passar o resto da velhice
Nesta praia do Ocidente,
 

O que demonstra que a conspiração
Não foi em Caracas como se disse
Mas neste modo de ser florido
Que a velha Europa tem em Lisboa
E muito antes de ter nascido
O próprio poeta Fernando Pessoa
Que foi apenas o escriturário
A primeira ovelha exposta no calvário
De um povo agiota que faz pé-de-meia
O manga-de-alpaca que os deuses mandaram
Fazer a escritura da nova Odisseia
Que foi apenas a primeira vítima
De celtas fenícios árabes e godos
Romanos cartagineses gregos e todos
Os velhos piratas que se reformaram
E feitos cristãos, cristãos apagaram
Da sua memória a nódoa marítima. 
 

in Cântico do País Emerso,
Antologia Poética

«- Índice da Obra de Natália Correia
UMA HOMENAGEM À ESCRITA

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