IN PASSAPORTE

  • Discurso Directo
  • Poema Destinado a Haver Domingo
  • Elegia dos Amantes Lúcidos
  • Projecto de Bodas
  • Nictofagia

Discurso Directo


Diego Rivera

 

 

Ou lírios ou o luar.

E eu que fico no meio?

Trago esse poço de ar

Como um aborto no seio.

 

Contrario a natureza

Num perfil de Nefertite.

Cinco tostões de tristeza

Num bolso de dinamite.

 

Essa lua na algibeira,

É o vinho de Corinto

Que me dá a bebedeira

Da gaivota que me sinto.

 

Julieta trapezista

Com passaporte de pomba.

Só há Romeu se houver pista

como um estouro de bomba.

 

Cheguei depois das estrelas,

Mas emendei o engano

Esticando as minhas velas

Num esquife a todo o pano.

 

Se fiquei irmã das rosas

Foi pelo atalho infinito

Das veias incestuosas

Que me impelem como um grito.

 

E nada de biografia

Senão a lua nova:

O que escrevem um dia

Os astros na minha cova.

 

in PASSAPORTE,
Poesia Completa

poema destinado a haver domingo


Diego Rivera 

 

 

Bastam-me as cinco pontas de uma estrela
E a cor dum navio em movimento
E como ave, ficar parada a vê-la
E como flor, qualquer odor no vento.
Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio de cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.
Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.
Deixem ao dia a cama de um domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa de um flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre
Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio. 

in PASSAPORTE,
Poesia Completa 

elegia dos amantes lúcidos

Alejandro Cano BoladoAlejandro Cano Bolado


  

Na girândola das árvores (e não há quem as detenha)
Deixa de fora a tarde o vermelho que a tinge.
Se ao menos tu ficasses na pausa que desenha
O contorno lunar da noite que te finge!

 

Se ao menos eu gelasse uma corda do vento
para encontrar a forma exacta dum violino
Que fosse a sensibilidade deste pensamento
Com que a minha sombra vai pensando o meu destino

 

E não houvesse o sono dum telhado
Entre ter de haver eu e haver o tecto;
E a eternidade não estivesse ao lado
A colocar-nos nas costas as asas dum insecto

 

Meu amor, meu amor, teu gesto nasce
Para partir de ti e ser ao longe
A cor duma cidade que nos pasce
Como a ausência de deus pastando um monge

 

Ah, se uma súbita mão na hora a pique
Tangendo harpas geladas por segredos
Desprendesse uma aragem de repiques
Destes sinos parados pelo medo!

 

Mas só porque vieste fez-se tarde,
Ou é a vida que nasce já tardia
Como uma estrela que se acende e arde
Porque não cabe na rapidez do dia?

 

Nem homem nem mulher. Só a moeda antiga:
Uma inflação de deuses que não pode parar
Como um pássaro cego à nora da intriga
Que é a morte no centro connosco a circular.

 

Será o mesmo tempo que nos cabe?
Talvez sejas a raça prematura
Duma gota de orvalho que se há-de
Negar à minha sede desértica e futura.

 

Como o brilho dum sol partido ao meio
Damos luz pela nostalgia da metade.
Partes para ser gaivota no meu seio.
Mas não trazes no bico uma cidade.

 

Aqui pousou um pássaro de lume
Que deixou um voo subterrâneo
Na repetida vibração do gume
Que cada hora traz à lâmina do crânio.

 

Teus dedos num relógio como a picada duma abelha
A fabricar o mel da estação perdida!
Que quanto a primavera um rouxinol na telha
É toda a melodia que traz na unha a vida.

 

O navio tem dois extremos ermos:
Os cabelos para Vénus e os pés para Marte.
Mas a viagem é o mar com a terra a ver-nos.
E com lenços à vista ninguém parte.

 

Ah, se ao menos eu pudesse agora erguer-me
Como uma pedra pelas minhas mãos futuras
E ficasse para sempre a aquecer-me
Ao sol que cega efémeras criaturas!

 

Se soltasses as aves da rotina
E de um jorro de deuses abrisses a comporta
E reclinada em tua espádua genuína
Eu entrasse num céu sem ter que achar a porta!

 

Se tu viesses cavaleiro branco
Orvalhado pela manhã do meu instinto.
E ficasses a chamar-me como um canto
No porvir do nosso último recinto!

 
 

Se ficássemos espuma de Maio cor-de-rosa
Nas praias donde Maio se retira,
Enrolados nos panos duma paisagem silenciosa
Que fosse a pura sonoridade da ausência duma lira!

 

Ah, as sementes que te exigem em declive
Entre abismos onde nunca te despenhas
E esfumados voos em que te embebes e revives
O que de ti já pousou no cume das montanhas!

 

Inútil decifrarmos este oráculo de ave absorta
Na incontinência do voo que a abrasa.
Se houver um palácio sem porta, talvez seja a porta.
Se houver uma casa sem tecto, talvez seja a casa.

 

in PASSAPORTE,
Poesia Completa

projecto de bodas

Matias QuetglasMatias Quetglas

 


Hoje apetece que uma rosa seja
O coração exterior do dia;
E a tua adolescência de cereja
No meu bico de Isolda Cotovia.

 

Hoje apetece a intuição dum cais
Para a lucidez de não chegar a tempo;
E ficarmos violetas nupciais
Com a lua a celebrar o casamento.


Apetece uma casa cor-de-rosa
Com um galo vermelho no telhado
E os degraus de uma seda vagarosa
Que nunca chegue à varanda do noivado.


Hoje apetece que o cigarro saiba
A ter fumado uma cidade toda.
Ser o anel onde o teu dedo caiba
E faltarmos os dois à nossa boda.


Hoje apetece um interior de esponja
E uma estátua a que moldar o vento.
Deitar as sortes e, se sair monja,
Navegar ao acaso o meu convento.


Hoje apetece o mundo pelo modo
Como vai despenhar-se o trapezista
Abrir mais uma flor no nosso lodo:
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.


Hoje apetece que a cor de um automóvel
Seja o Egipto de novo em movimento;
E que no espaço duma gota imóvel
Caiba a possível capital do vento.


Hoje apetece ter nascido loiro
Como apetece ter havido Atenas
E tu nas curvas rápidas de um toiro
E eu quase intangível como as renas.


Hoje apetece que venhas no jornal
Como um anúncio. Sem fotografia.
E inventar-te uma lenda de cristal
Para reflectir a minha biografia. 

IN PASSAPORTE
Antologia Poética 

nictofagia

Montserrat GudiolMontserrat Gudiol

 

 

Se eu pudesse beber-te, ó noite,
Até encontrar o teu gosto,
Ou mordendo a ponta do açoite
Da tua treva no meu rosto,
 

Achasse a planície de lume
De que és uma aresta de estrelas
E sonhando sem peso e volume
Fosse um sonho de chão a tece-las
E na praia de um trilo sem flauta,
 

Instrumento das harpas do fundo
Duma água escorrida da pauta
Da manhã mais antiga do mundo,
Me estendesses, ó noite florida
 

Das sementes que trazes no punho,
Uma adolescência impelida
Pelo arco das brisas de junho! 

IN PASSAPORTE,
Antologioa Poética

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