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in RIO DE NUVENS
V - Eu venho do sonho e fujo da vida
Claudio Bravo
Eu venho do sonho e fujo da vida.
Errei no caminho para a paz prometida.
Só sei que me chama um canto do mar
E a nau dos sonhos no céu a varar.
Ó meu capitão da barca perdida
A errar entre o sonho e o engano da vida!
in Rio de Nuvens,
Antologia Poética
IV - Ó casa de dois andares
Borrego Ruiz
Ó casa de dois andares:
Ao lado a horta, os pomares,
ao meio a fonte a cantar
Uma canção pequenina.
Alguém que por ali passa
Ainda pode escutar
Esse cantar de menina?
Ó minhas noites serenas
Deslizando para um fim
Velado por um anjo branco
Que já se esqueceu de mim!
Que é dos vestidinhos curtos
Que escassamente tapavam
Meu corpinho quase nu?
Que é dos meus brinquedos rústicos?
Quem os fechou num baú?
Ó infância sem poente
Luz de uma perene aurora
A vaguear padecente
Nas horas frias de agora.
in Poesia Completa
Dom Quixote, 2007
III - Casta e fabulosa a lua

Warren, Pele rising
Casta e fabulosa a lua
Estampada na vidraça.
De sentinela, na rua.
Só o silencio que passa.
Risca a treva o clarão
De uma porta que se abre
Para uma perdida verdade
Submersa na solidão.
E aquela estrela cadente
Numa curva já sumida
Escreve no céu de repente
Todo o mistério da vida.
in Rio de Nuvens,
Antologia Poética
II - Quem foi que riu na noite silenciosa

Odilon Redon
Quem foi que riu na noite silenciosa,
Que o riso deu à noite a forma duma rosa?
E quem chorou depois na noite densa,
Que a rosa se desfez em lágrima suspensa?
in Rio de Nuvens,
Antologia Poética
I - Nuvens Correndo num Rio
Andre Louis Derain
Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!
Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.
Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?
Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?
Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.
in Rio de Nuvens,
Antologia Poética
