Balada

Barbara Cole, couple
© Barbara Cole, Couple 

 

 

Depois do sangue misturado,
depois dos dentes, dos lamentos,
estamos deitados, lado a lado,
e desfolhamos sofrimentos.
Temos trint'anos, mais trezentos
de sofredora exaltação.
É este o cabo dos tormentos?
Ai, não e não! Ainda não.
Saboreamos o passado
por entre os beijos mais violentos
e mais subtis que temos dado.
E o monumento dos momentos
oscila, desde os fundamentos,
a tão febril consagração.
Mas estacamos, sonolentos.
Agora, não. Ainda não ...
Tudo se torna esbranquiçado:
eram azuis, são já cinzentos
os horizontes do pecado ...
Há nos teus ombros turbulentos
cintilações, pressentimentos ...
Os nossos corpos descerão
para que abismos lamacentos?
Ah! não, e não! Ainda não!
Eis-vos, de novo, movimentos
que apunhalais a inquietação!
E assim unidos gritaremos
que não e não! que ainda não!

in «Música de Cama»
Lisboa: Presença 1996

PARAÍSO

Barbara Cole, Loves me not
© Barbara Cole, Loves Me Not 

  

Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

 

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

 

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

 

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.


 

in «Infinito pessoal ou A Arte de Amar»,  2ª ed.
Lisboa : Guimaräes Editores, 1963

DO TEMPO AO CORAÇÃO

Barbara Cole, Yellow Coat

 © Barbara Cole, Yellow Coat 

 

 

E volto a murmurar        Do cântico de amor
gerado na Suméria        novas europutas
Do muito que me dás ao muito que não dou
mas sempre conservo entre as coisas mais puras

 

De uma genebra a mais num bar de Amesterdão
a não perder o pé numa praia da Grécia
De tantas        mãos        que nos passam pelas mãos
a tão poucas que são as que nunca se esquecem

 

De ter visto o começo e o fim da Via Ápia
De ter atravessado o muro de Berlim
De outros muros que não aparecem no mapa
de outros que só aparecem aqui

 

ao barro deste céu que te modela os ombros
ao sopro deste céu que te solta o cabelo
ao riso deste deste céu que vem ao nosso encontro
quando sabe que nós não precisamos dele

 

Da pertinaz presença        E da longevidade
do corvo        do chacal        do louco        do eunuco
ao rouxinol que morre em plena madrugada
à rosa que adormece em caules de um minuto

 

Do que foi noutro tempo a saúde no campo
à lepra que nos rói a paisagem bucólica
Do tempo        ao coração minado pelo cancro
Dos rins        ao infinito incubado na cólera

 

Do tempo ao coração        mas com pausa na pele
como «Roma by night» entre dois aviões
como passar o Verão numa vogal aberta
como dizer que não        que já não somos dois

 

Dos rins ao infinito        A este que não outro
Ao que rola dos rins        Ao que vai rebentar-te
na câmara blindada e nocturna do útero
E nos transfere o fim para um pouco mais tarde

 

Da curva de entretanto          à entrada do poço
De soletrar em mim        a ler        nas tuas mãos
como é rápido        e lento        e recto        e sinuoso
o percurso que vai do tempo ao coração.  

 

in «Obra Poética - 1948-1988»,
introd. de Eduardo Prado Coelho,
Presença;  Lisboa, 1996

SONETO DO CATIVO

Barbara Cole, Silver Reflection
© Barbara Cole, Silver Reflection
 

  

Se é sem dúvida Amor esta explosão
de tantas sensações contraditárias,
a sórdida mistura das memórias,
tão longe da verdade e da invenção;

 

o espelho deformante; a profusão
de frases insensatas, incensórias;
a cúmplice partilha nas histórias
do que os outros dirão ou não dirão;

 

se é sem dúvida Amor a cobardia
de buscar nos lençóis a mais sombria
razão de encantamento e de desprezo;

 

não há dúvida Amor, que te não fujo
e que, por ti, tão cego, surdo e sujo,
tenho vivido eternamente preso! 

 

in «Os Quatro Cantos do Tempo»
Lisboa : Guimarães Editores, 1963

Índice de poesias de D M Ferreira ^ 

CANÇÃO PRIMAVERIL

Alain Dumas, Yearning

 

© Alain Dumas, Yearning

 


 

 

Anda no ar a excitação
de seios súbito exibidos
à torva luz de um alçapão,
por onde os corpos rolarão,
mordidos!
Ou é um deus, ou foi a Morte
que nos vestiu este torpor;
e a Primavera é um chicote,
abrindo as veias e o decote
ao meu amor!
Esqueço que os dedos têm ossos:
é só de sangue esta carícia;
apenas nervos os pescoços...
Mas nos teus olhos, nos meus olhos,
a luz da morte brilha. 

 

in «Os Quatro Cantos do Tempo»
Lisboa : Guimarães Editores, 1963

E POR VEZES

Jacqueline Osborn, Afternoon on the Boardwalk
Jacqueline Osborn, Afternoon on the Boardwalk

 

 

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

 

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

 

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

 

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos 

Continuar a Ler --» 

in «366 poemas que falam de amor»,
Antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Lisboa: Quetzal, 2003

«-Índice de Poetas Apaixonados