Esquecimento

Properté Artistique de M. M. Sauzé frèfres

 Properté Artistique de M. M. Sauzé Frères

 


 

Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

 

Tudo em meu redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei... tacteio sombras... que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

 

Descem em mim poentes de Novembro...
A sombra dos meus olhos, a escurecer...
Veste de roxo e negro os crisantemos...

 

E desse que era meu já me não lembro...
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!... 

 

in [Sonetos] - «Reliquiae»

PRIMAVERA

Vintage PosterVintage Poster


 

 

É Primavera agora, meu Amor!
O campo despe a veste de estamenha;
Não há árvore nenhuma que não tenha
O coração aberto, todo em flor!

 

Ah! Deixa-te vogar, calmo, ao sabor
Da vida... não há bem que nos não venha
Dum mal que o nosso orgulho em vão desdenha!
Não há bem que não possa ser melhor!

 

Também despi meu triste burel pardo,
E agora cheiro a rosmaninho e a nardo
E ando agora tonta, à tua espera...

 

Pus rosas cor-de-rosa em meus cabelos...
Parecem um rosal! Vem desprendê-los!
Meu Amor, meu Amor, é Primavera!... 

in «Reliquiae»

OS MEUS VERSOS

Holm Gren, Judge October 1926Holm Gren, Judge, October 1926


 

 
Rasga esses versos que eu te fiz, Amor!
Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,
Que a cinza os cubra que os arraste o vento,
Que a tempestade os leve aonde for!

 

Rasga-os na mente, se os souberes de cor,
Que volte ao nada o nada de um  momento!
Julguei-me grande pelo sentimento,
E pelo orgulho ainda sou maior!...

 

Tanto verso já disse o que eu sonhei!
Tantos penaram já o que eu penei!
Asas que passam, todo o mundo as sente...

 

Rasgas os meus versos... Pobre endoidecida!
Como se um grande amor cá nesta vida
Não fosse o mesmo amor de toda a gente!... 

 

in [Sonetos] ,  «RELIQUIAE»

Roseira brava

Harrison Fisherilustração de Harrison Fisher
 

 


Há nos teus olhos de oiro um tal fulgor
E no teu riso tanta claridade,
Que o lembrar-me de ti é ter saudade
Duma roseira brava toda em flor

 

Tuas mãos foram feitas para a dor,
Para os gestos de doçura e piedade;
E os teus beijos de sonho e de ansiedade
São como a alma a arder do próprio Amor!

 

Nasci envolta em trajes de mendiga;
E, ao dares-me o teu amor de maravilha,
Deste-me o manto de oiro de rainha!

 

Tua irmã... teu amor... e tua amiga...
E, também, toda em flor, a tua filha,
Minha roseira brava que é só minha!... 

in «Reliquiae»  

Índice de poesias de Florbela Espanca  ^

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