VOLÚPIA

Pedro Alvarez, Tango ArgentinoPedro Alvarez, Tango Argentino

 

 

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

 

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

 

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

 

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças... 
 

in«Charneca em Flor»,  «Poesia Completa», 
 

recolha e notas de Rodrigues Lapa, Sa da Costa, Lisboa, 1978

NERVOS DE OIRO

Xavier Goséilustração de Xavier Gosé

 

  

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me na alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e me faz chorar!

 

Em meu corpo fremente sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!

 

O coração, numa imperial oferta,
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta! 

 

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a arte suprema dos meus versos!  

in, «Charneca em Flor»

REALIDADE

Alberto Vargas

ilustração de  Alberto Vargas

 


Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Teve a frescura pálida do linho...

 

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

 

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

 

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo,
Não sei se te encontrei... se te perdi... 

 

in «Charneca em Flor», 1930 

SE TU VIESSES VER-ME

Alberto Vargasilustração de  Alberto Vargas


 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noitinha de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...

 

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus braços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...

 

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

 

E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...  

in «Charneca em Flor», 1930 

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