Teus olhos

 Wiktor Sadowskiilustração  Wiktor Sadowski  

 

 


Olhos do meu amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos, endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas meus brocados.
 

Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamentes, todos os meus oiros
Que trouxe d'Além-Mundos ignorados!
 

Olhos do meu amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...
 

Berço vindo do céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu sumptuoso túmulo de morta!...
 

in «Charneca em Flor», 1930 (de: Sonetos)

O meu Condão

Alberto Vargas

ilustração de Alberto Vargas

 


Quis Deus dar-me o condão de ser sensível
Como o diamante à luz que o alumia,
Dar-me uma alma fantástica, impossível:
- Um bailado de cor e fantasia! 

 

Quis Deus fazer de ti a ambrósia
Desta paixão estranha, ardente, incrível!
Erguer em mim o facho inextinguível,
Como um cinzel vincando uma agonia!

 

Quis Deus fazer-me tua...para nada!
- Vãos, os meus braços de crucificada,
Inúteis, esses beijos que te dei!

 

Anda ! Caminha! Aonde ?... Mas por onde? ...
Se a um gesto dos teus a sombra esconde
O caminho de estrelas que tracei ...


 

in «Charneca em Flor», 1930, pág. 125,
 [SONETOS],  Bertrand

SUPREMO ENLEIO

 
Karen Dupré, Trois Bijoux II 

 

 

Quanta mulher no teu passado, quanta!
Tanta sombra em redor! Mas que me importa?
Se delas veio o sonho que conforta,
A sua vida foi três vezes santa!

 

Erva do chão que a mão de Deus levanta,
Folhas murchas de rojo à tua porta...
Quando eu for uma pobre coisa morta,
Quanta mulher ainda! Quanta! Quanta!

 

Mas eu sou a manhã: apago estrelas!
Hás-de ver-me, beijar-me em todas elas,
Mesmo na boca da que for mais linda!

 

E quando a derradeira, enfim, vier,
Nesse corpo vibrante de mulher
Será o meu que hás-de encontrar ainda...  

 

in «Charneca em Flor», 1930

MOCIDADE

Xavier Goséilustração de Xavier Gosé
 

 

A mocidade esplêndida, vibrante,
Ardente, extraordinária, audaciosa,
Que vê num cardo a folha duma rosa,
Na gota de água o brilho dum diamante;

 

Essa que fez de mim Judeu Errante
Do espírito, a torrente caudalosa,
Dos vendavais irmã tempestuosa,
- Trago-a em mim vermelha, triunfante!

 

No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir!

 

Ama-me doida, estonteadoramente,
Ó meu Amor! que o coração da gente
É tão pequeno... e a vida, água a fugir...

 

in «Charneca em Flor», 1930

HE HUM NÃO QUERER MAIS QUE BEM QUERER II

Xavier Gosé, el jardínilustração de Xavier Gosé, El Jardin
 

 


Meu amor, meu Amado, vê... repara:
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
- Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares ate ao fim. 

 

Meus olhos têm tons de pedra rara
- É só para teu bem que os tenho assim -
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.

 

Sou triste como a folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenufares...

 

Deus fez-me atravessar o teu caminho...
- Que contas dás a Deus indo sozinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares? - 
 

in, «Charneca em Flor»

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