Tento empurrar-te de cima do poema

  www.deviantart.com
© Bntuae DeviantART

 

Tento empurrar-te de cima do poema
para não o estragar na emoção de ti:
olhos semi-cerrados, em precauções de tempo
a sonhá-lo de longe, todo livre sem ti.
 
Dele ausento os teus olhos, sorriso, boca, olhar:
tudo coisas de ti, mas coisas de partir...
E o meu alarme nasce: e se morreste aí,
no meio de chão sem texto que é ausente de ti?
 
E se já não respiras? Se eu não te vejo mais
por te querer empurrar, lírica de emoção?
E o meu pânico cresce: se tu não estiveres lá?
E se tu não estiveres onde o poema está?
 
Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoção e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.
 

«Coisas de Partir», Coimbra, 
Fora do Texto, 1993
 

Revisitações

  www.deviantart.com
© missmaryXD at Deviantart 

 

Se eu como ele, o meu amor
tão anterior assim ao próprio amor,
o cajado e a pele por simbólica mão,
e o perfume que em mim,
então,

 

talvez eu te fizesse
sentir sem que o soubesse,
ao certo,
a chamamento à noite, falar
muito de noite e nela adormecer.
Longuíssima e final. Mas nova sempre.
Reencarnando os tempos e as datas.

 

De memórias tão curtas. E do fim
mais final do esquecimento.
Ter encontrado há pouca coisa dada
há quantos anos? Trinta?
«Não te esqueças de mim.».             
 

in «Às Vezes o Paraíso» Anos 90 e Agora
Ed.Qusai
 

Quase de nada místico

© 7Paintings: www.7paintings.com
Art of Dance IV

 

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

 

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

 

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.
 

in «Às Vezes o Paraíso», 1ª Ed. , 
Lisboa, Quetzal Editores
1998 

UM CÉU E NADA MAIS


Meinke Flesseman, Waterscape
  

Um céu e nada mais - que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul - como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais - que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais. 

 

Reflexos

  www.deviantart.com
© puss__in__boots at Deviantart

 

Olho-te pelo reflexo
Do vidro
E o coração da noite

 

E o meu desejo de ti
São lágrimas por dentro,
Tão doídas e fundas
Que se não fosse:

 

                          o tempo de viver;
                          e a gente em social desencontrado;
                          e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
                          fosse alta e oportuna,

 

invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti.
 

In «Anos 90 e Agora»,
 
Quasi Edições
 

 Índice de Poesias de A. L. Amaral►

«-Índice de Poetas Apaixonados