ODE AO DIVINO QUE AÍ MORA


Bjorn Forsberg

 

Como posso dizer que o teu corpo é divino?
Nele eu faria o pino até insensatez,
romperia as comportas até tocarem sinos
que, num tom muito fino, te cantassem os pés.
(Falei agora em pés por causa de aqui estar,
com dor em pé direito e tom quase de Orfeu;
mas deixa-me falar, permite-me voltar
a falar do teu corpo como a fingir de céu).
Como posso dizer que o teu corpo é divino
sem cair no lugar do mais comum mortal?
Que eu queria fazer pino além de Escorial
no sítio do teu corpo mais fundamental,
ou seja, o teu tendão onde se assenta o pé,
onde se assenta a mão e o sítio mais central,
ou seja, o teu olhar, ou seja, outro qualquer
(divino por divino, permite-me dizer
que tanto vale pino como vale destino
ou outro desatino conjugado a viver).
Deixa-me então falar do teu corpo: num hino,
tecer-lhe algumas glosas em tom de malmequer,
dizer-lhe que assim tanto por êxtase divino,
é difícil manter-me rimada e sem arder
em chamas muito altas pouco celestiais,
mais perto de outros cantos que não sejam o céu,
mas que o sejam também, porque entre inferno e céu,
a diferença não há: descerre-se-lhe o véu
e o que sobra por certo é um excesso de amor,
que não está muito longe do divino rubor
que habita no teu corpo e que divino o faz.
Como posso dizer que o teu corpo é divino
se o divino é sem nome, se o nome lhe é fugaz?
Rimarei com divino o que puder. E então:
sino, menino, tino, desatino ou até
(ainda que mais rime) a planta do teu pé,
a mais leve tremura que habita a tua mão.
E o tom que iniciou sobre o teu corpo o hino
desviou-se, subiu a lugar de outra cor:
romantizou-se o tom, enterneceu-se o amor,
e já não me apetece falar-te que não seja
de uma forma macia, redonda de cereja
e doce como nêspera em humano fulgor.
Por isso volto aqui, por isso este poema
tem que se contentar com ser o que eu quiser:
um tempo de ternura, um tempo de colher
frutos tão sumarentos que o Verão invejaria
e os deuses no Olimpo seriam deslumbrados,
e nem fúrias do Hades, e nem Melancolias,
e nem as Parcas todas - todos silenciados!
Por isso aqui persisto, em lugar que talvez
interrogue a certeza do lugar do divino,
mas onde eu faço o pino até insensatez,
e depois me detenho, em mil e um cuidados.
E onde são divinos os deuses que não vês,
mas muito mais divinos podem ser os teus pés,
porque assim tão amados, até insensatez,
como os teus dedos podem sê-lo insensatamente,
até pico maior que os faça de repente
uma explosão de estrelas em poético furor.
Preparou-se o poema para assim: "meu amor",
e um beijo muito impuro, e tão incastamente
que se rasgue o divino até humana festa,
forma de aqui te ter - porque ter-te presente,
maneira de dizer-te que o que resta é tu seres:
flecha onde o arco mora e a língua se demora
na palavra mais longa, diluviana e tudo:
um sítio de veludo bordado a horizontes
de corpóreos limites, de sonhos consistentes,
de uma matéria igual à matéria em que o tempo
faz, lentamente, o pino, e elege, ao fazê-lo,
outro lugar divino: esse teu tornozelo
- onde se encostam, calmas,
as matérias que digo.

 

TÍTULO POR HAVER

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No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

 

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

 

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto:
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso 
 

in «366 poemas que falam de amor»

COISAS DE LUZ ANTIGAS

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Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.
Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.
Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:
um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)
 

 

LUA DE PAPEL

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Se eu cantasse o amor sem resultado ou sem causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados

 

Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em lua-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor

 

Assim o que me resta é lua cheia a trans-
bordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa a insistir papel. E amor.
 

in, «366 poemas que falam de amor», 
Antologia organizada por Vasco Graça Moura

SONETO CIENTÍFICO A FINGIR

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Dar o mote ao amor. Glosar o tema
tantas vezes que assuste o pensamento.
Se for antigo, seja. Mas é belo
e como a arte: nem útil nem moral.
Que me interessa que seja por soneto
em vez de verso ou linha desvastada?
O soneto é antigo? Pois que seja:
também o mundo é e ainda existe.
Só não vejo vantagens pela rima.
Dir-me-ão que é limite: deixa ser.
Se me dobro demais por ser mulher
[esta rimou, mas foi só por acaso]
Se me dobro demais, dizia eu,
não consigo falar-me como devo,
ou seja, na mentira que é o verso,
ou seja, na mentira do que mostro.
E se é soneto coxo, não faz mal.
E se não tem tercetos, paciência:
dar o mote ao amor, glosar o tema,
e depois desviar. Isso é ciência! 

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