AMEDEO MODIGLIANI & JEANNE HÉBUTERNE

Amedeo Modigliani, Jeanne Hébuterne à ClocheAmedeo Modigliani, Jeanne Hébuterne à Cloche 

  

amedeo:
        certo dia, quando pintava o retrato de soutine e a mão deixara de me seguir, soutine disse-me:
        - bebes para te matares.
        e eu perguntei-lhe:
       - e tu, soutine, o que te levou à tentativa de te enforcares?
        saímos, depois, em silêncio para a rua. vimos o sena latejar sob as pontes e engolir as estrelas da imensa noite de paris.

 

jeanne:
        soutine tinha razão. os anos passaram, não muitos, e amedeo tentara arranjar coragem para deixar de beber. foi inútil, e às vezes era violento - apesar de saber que eu nunca o abandonaria.

 

amedeo:
        jeanne pressentiu que eu não precisaria de muito tempo para realizar a minha obra. sempre vivi como um meteoro.

 

soutine:
        a 25 de janeiro de 1920, jeanne soube da morte de amedeo. refugiou-se num quarto em casa dos pais, num quinto andar. abriu a janela e saltou para junto dele. 

 

in «366 poemas que falam de amor»

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pernoitas em mim

Bert Christensen's CyberSpaceGallery: www.bertc.com
Galt , Fall Brilliance

  

      pernoitas em mim
      e se por acaso te toco a memória...amas
      ou finges morrer

 

      pressinto o aroma luminoso dos fogos
      escuto o rumor da terra molhada
      a fala queimada das estrelas

 

      é noite ainda
      o corpo ausente instala-se vagarosamente
      envelheço com a nómada solidão das aves

 

      já não possuo a brancura oculta das palavras
      e nenhum lume irrompe para beberes 


in «O Medo» - Salsugem - 1978/83:
 Rumor dos Fogos, 1983

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ESCREVO-TE A SENTIR TUDO ISTO

Pintura de Artur Cruzeiro Seixas


  

    escrevo-te a sentir tudo isto
    e num instante de maior lucidez poderia ser o rio
    as cabras escondendo o delicado tilintar dos guizos nos sais de prata da
fotografia
    poderia erguer-me como o castanheiro dos contos sussurrados junto
ao fogo
    e deambular trémulo com as aves
    ou acompanhar a sulfúrica borboleta revelando-se na saliva do lábios
    poderia imitar aquele pastor
    ou confundir-me com o sonho de cidade que a pouco e pouco morde a
sua imobilidade

 

    habito neste país de água por engano
    são-me necessárias imagens radiografias de ossos
    rostos desfocados
    mãos sobre corpos impressos no papel e nos espelhos
    repara
    nada mais possuo
    a não ser este recado que hoje segue manchado de finos bagos de romã
    repara
    como o coração de papel amareleceu no esquecimento de te amar
 

 

in «O Medo» - «Trabalhos do Olhar», 1976/82: 
Filmagens, 1980/81
 

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VEM COMIGO

Bert Christensen's CyberSpaceGallery: www.bertc.com
daSilva , The Corridor

 

vem comigo
ver as pirâmedes fantásticas do vento
no interior luminoso da terra encontrarás
o segredo de quartzo para desvendares o tempo
onde contemplamos a fulva doçura das cerejas

 

iremos para onde os restos de vida não acordem
a dor da imensa árvore a sombra
dos cabelos carregados de pólenes e de astros
crescemos lado a lado com o dragão
o súbito relâmpago dos frutos amadurecendo
iluminará por um instante as águas do jardim
e o alecrim perfumará os noctívagos passos
há muito prisioneiros no barro
onde o rosto se transforme e morre
e já não nos pertence

 

vem comigo
praticar essa arte imemorial de quem espera
não se sabe o quê junto à janela
encolho-me
como se fechasse uma gaveta para sempre
caminhasse onde caiu um lenço
mas levanto os olhos
quando o verão entra pelo quarto e devassa
esta humilde existência de papel

 

vem comigo
as palavras nada podem revelar
esqueci-as quase todas onde vislumbro um fogo
pegando fogo ao corpo mais próximo do meu 

 

in «O Medo» -  Uma Existência de Papel 1984/1985
: meu único amigo
 

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RASGO O MELANCÓLICO

Darío Urzay

  

rasgo o melancólico interior dos insectos
atravesso a sabedoria das infindáveis areias do sono
sou o último habitante do lado mitológico das cidades

 

por vezes consigo acordar
sacio a sede com a tua sombra para que nada me persiga
teço o casulo de cocaína escondo-me no mel da língua
lembro-me... fomos dois amigos e um cão sem nome
percorrendo a estelar noite noutros corpos

 

mas já me doem as veias quando te chamo
o coração oxidado enjaulou a vontade de te amar
os dedos largaram profundas ausências sobre o rosto
e os dias são pequenas manchas de cor sem ninguém

 

ficou-me este corpo sem tempo fotografado à sombra da casa
onde a memória se quebra com os objectos e amarelece no papel
pouco ou nada me lembro de mim
em tempos escrevi um diário perdido numa mudança de casa
continuo a monologar com o medo a visão breve destes ossos
suspensos no fulcro da noite por um fio de sal

 

partir de novo seria tudo esquecer
mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho
mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos
onde a vida e os barcos se cobrem de lodo

 

pernoito neste corpo magro espero a catástrofe
basta manter-me imóvel e olhar o que fui na fotografia
não... não voltarei a suicidar-me
pelo menos esta noite estou longe de desejar a eternidade  

 

in «O MEDO» - O Último Habitante, O Medo (1) 

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