FORAM BREVES E MEDONHAS AS NOITES DE AMOR

Artur Cruzeiro Seixas

  Pintura de Artur Cruzeiro Seixas

 

 

foram breves e medonhas as noites de amor
e regressar do âmago delas esfiapava-lhe o corpo
habitado ainda por flutuantes mãos

 

estava nu
sem água e sem luz que lhe mostrasse como era
ou como poderia construir a perfeição

 

os dias foram-se sumindo cor de chumbo
na procura incessante doutra amizade
que lhe prolongasse a vida

 

e uma vez acordou
caminhou lentamente por cima da idade
tão longe quanto pôde
onde era possível inventar outra infância
que não lhe ferisse o coração
 

 

in «O Medo», Assírio & Alvim, 1997

 

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VISITA-ME ENQUANTO EU NÃO ENVELHEÇO

paCayetano Arroyo
 

  

visita-me enquanto eu não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com o teu rosto de Modigliani suicidado

 

tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
vem

 

ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulforosa dos espelhos
vem

 

antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro

 

perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
vem

 

com teu sabor de açucar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-se  

 

 

in  «O MEDO» - "Two Friends e uma Paixão"-
-
Salsugem

 

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OFÍCIO DE AMAR

Albert Bloch  
 

  

      já não necessito de ti
      tenho a companhia nocturna dos animais e a peste
      tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras galáxias, e o remorso


      Um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
      é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração
      não, não preciso mais de mim
      possuo a doença dos espaços incomensuráveis
      e os secretos poços dos nómadas

 

      ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto
      deixei de estar disponível, perdoa-me 
      se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo  

 

in «O Medo» - «Trabalhos do Olhar» 1976/82: 
Sete dos Ofícios
, 1980

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ENQUANTO FALAVAS

James Gleeson

James Gleeson

 


Enquanto falavas de um mar
derramei sobre o peito os escombros da casa
reconheci-te
nos alicerces devorados pelas raízes das palmeiras
na sombra da ave deslizando junto à parede
no foco de luz rompendo o tijolo onde estivera a chaminé
vivemos aqui
com o ruído dum cano ressumando água
até que o frio nos fez abandonar o lugar e o amor

 

não sei para onde foste morrer
eu continuo aqui... escrevo
alheio ao ódio e às variações do gosto e da simpatia
continuo a construir o relâmpago das palavras
que te farão regressar... ao anoitecer
há uma sensação de aves do outro lado das portas
os corpos caídos
a vida toda destinada à demolição

 

tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto... creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui 

 

 

in «O MEDO» - "O Esquecimento em Yucatán", 1982/83

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AMO AS ÁGUAS

Pintura de Artur Cruzeiro Seixas  
 

 

amo as águas no instante em que não são do rio
nem ainda pertencem ao mar
árduas planícies rosto incendiado pesando-me nos ombros
hirto... tatuado no entardecer de magoada cocaína

 

leio baixinho aquele poema Eu de Belaflor
nocturna sombra do corpo embriagado
fogos por descuido acesos no humido leito de juncos
altíssima margem...inacessível noite de Florbela

 

e o soneto dizia: Sou aquela que passa e ninguém vê 
                               Sou a que chamam triste sem o ser 
                               Sou a que chora sem saber porquê

 

apesar de tudo conheço bem este rio
e o cuspo diáfano do coral o sono letárgico
os ternos lábios das grandes bocas fluviais

 

sinto o rigor das plantas erectas as vozes esparsas
os corpos de ouro enleados na violência das maresias
junto à foz de meu insegura desaguar... continuo sentado

 

escrevo a desordem urgente das horas... medito-me
cuidadosamente o tabaco amargo pressente-te na garganta
e no fundo inóspito do corpo desenvolve-se
o desejo de fugir

 

espero o cortante sal-gema das ilhas... a ilusão
de me prolongar na secreta noite dos peixes
adormeço
para que estes dias aconteçam mais lentos
nas proximidades inalteráveis deste mar 

 

in «Salsugem»,1978/83: Quinta de Santa Catarina
 (fragmentos de um diário), 1979/80 
  

 

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