12 de Abril 1985

Darío Urzay

 

      aqui está o fogo, bebe. aqui estão as estrelas cujos nomes alguém inscreveu a sangue. aqui está a terra onde me sepultarás. 

      longíquos dias, travessia de séculos, noites perdidas na inutilidade irrequieta dos quartos-minguantes. aqui estou, perdido para sempre, sozinho, quase sem mim, a evitar o pior. 

      pego num cigarro, fumo-o sofregamente. desejo-te ainda. se o telefone tocasse, se batessem à porta, se me apetecesse sair daqui. 

      já não estou contigo nem com os outros. eles estão vivos, movimentando-se. eu não sei se estou vivo, imobilizo-me. os cães ladram junto à janela, ouço-os cada vez mais longe. 

 

in «O Medo», Livro X - O Medo 3 - 1985
Ed. Assírio & Alvim, 2ª Ed., 2000

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em sua boca dardeja um narciso de cuspo

 D'Agaggio

 

(...)

 

em sua boca dardeja um narciso de cuspo
não encontrará na fala sossego algum
depois do susto das palavras murmuradas
o corpo incha e poro a poro uma abelha
refulge sobre a máscara de mel

 

poderíamos falar dele noite adiante
mas não
o começo da escrita seria a sua voz quebrada
no silêncio obssessivo das horas
mas não
porque são horas de profundo e anónimo
não o lembraremos mais

 

por trás da máscara recolhe-se por fim o olhar
uma vertigem o seu verdadeiro rosto
este coração em forma de quilha singrando o mar
de resto
já não há sinais visíveis da sua passagem
excepto a impressão digital esquecida
nos labirínticos arquivos de identificação

 

esquecemos também o seu nome ou se gostava de animais
o corpo dilui-se de fotografia em fotografia
os lábios perderam a idade e as mãos apagaram o desejo
o rosto imobilizou-se nos confins da memória

 

na saliva esta flor de alcatrão
ele tenta reencontrar um novo sentido para a fala
mas a vida confunde-se sílaba a sílaba
à humidade do tempo agarrado ao peito
e mais nada absolutamente mais nada
será capaz de o tornar cúmplice do riso
ele calou-se
quando percebeu que escrever podia ser um vício feliz
ou a única mentira suportável

 

a peste contamina a voz coalha nos lábios
o vento cessou por dentro dos ossos o vento
esse zumbido interior
que transita pelo lume das veias quando o deserto vem
na frescura indefesa doutro corpo

 

assim prossegue caminho
aquele que não aprendeu a ler nos relógios
assim se esquece a vida na urgência dos pulsos

 

ele hesita recua pondera a situação
mas nenhum grito o detém
o crime de escrever fascina-o

 

a adolescência sumiu-se entre a noite e a alba
frágil fio de água suspenso na luz
lago minúsculo sedução do pólen
serenidade da pétala misturando-se ao estrume
misterioso rumor alquímico do ouro

 

a obra é construída na paciência do sangue
rubra cicratiz de tinta
insónia do sexo corpo em transumante vigília
morte dissolvida na cinza dos dias

 

a pouco e pouco
ele contrói um subterrâneo em vidro
gasta o tempo incomensurável da solidão
explora filões de preciosos minerais
avança até ao início remoto da água
toca a ferida pedra do coração da terra
dele crescem a desolação e a incerteza
dele irrompem a queda da voz e o voo das aves
a palavra ainda intacta e não cansada

 

mas de metáfora em metáfora
ficou adulto para sempre
o subterrâneo de vidro é um estilhaço
ficou-lhe a ilusão de nele ter vivido e sonhado

 

as horas sem ninguém sem paixão
enquanto todo o texto se cobre de ferrugem
e envelhece com ele

 

apesar de tudo nenhuma mina permanecerá intacta
nenhuma semente será sagrada
em noite nenhuma encontrará felicidade
e todo o corpo terá sido devassado

 

a noite
da noite onde se escrevem livros ele esqueceu
a vida quase toda

 

      ele aceita o brilho aquático dos astros
      e como único presságio
      a melancolia aérea das açucenas
      aceita
      como único consolo
      a imensa ausência de teus braços
      e como único tormento
      aquele cuja pele ainda não tocou
      aceita como única fala possível
      aquele que é susceptível de rasgar pulsos
      aceita
      como único corpo
      aquele que cresce semelhante ao seu
      e como único país aquele espelho
      onde te refletes e me nomeias
      aceita
      a humidade de viver sozinho

 

e um dia morrerá como toda a gente
nunca mais o lembraremos
nunca mais
porque neste preciso instante acabou de acordar
abre os olhos é jovem ainda
sorri e diz-me:
- Aqui tens o inocente revólver para a eternidade
 

 

in «O MEDO»,  Livro Sétimo - 
«Impressão Digital»

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deitei a cabeça em cima da fotografia

Antoni Guansé Antoni Guansé

 

 

 

 

deitei a cabeça em cima da fotografia
e com a respiração despertei teu corpo
do sítio penumbroso onde viveras
o tempo não se gastou
passei estes anos a colocar as coisas
nos seus devidos lugares
ainda ouço
a voz outonal das palmeiras e o murmúrio
do vento cercando a casa protegida pelo bolor
era uma pequena ilha dizias
onde os ruídos duma vida anterior a esta
dormitavam ainda

 

agora está tudo arrumado
agito-me em volta das coisas
mas nada posso corrigir
o que está feito está feito

 

levanto-me daqui e corro para o telefone
tento saber se estás onde penso existir
uma cidade... ninguém responde

 

onde estarás?
deste ou do outro lado do telefone?
um puto irrompe da insónia
deitando-me a língua de fora

 

de qualquer maneira não consegui a ligação 

 

in «Eras Novo Ainda» de "O Medo" 
(Livro Sexto - «Salsugem»,  1981/82)

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O AMOR AUMENTA

James Gleeson

James Gleeson

 

  

o amor aumenta com o amarelecimento do linho
maior quietude rodeia agora a casa lunar
soçobram do fundo dos espelhos submersos os instrumentos
de muitos e delicados trabalhos
repousam sobre a erva para sempre

 

só o desejo dalguma eternidade despertaria o terno arado
mas a vida tropeça nos húmidos orgãos da terra
as selvagens flores afligir-te-ão o olhar
por isso inventaremos o necessário ciclo do outono

 

a noite dilata a viagem
pressentimos a nervosa luta dos corpos contra a velhice
mas nada há a fazer
resta-nos descer com as raízes do castanheiro
até onde se ramificam as primeiras águas e se refaz o desejo

 

as bocas erguem-se
procuram um rápido beijo no éter da casa


 

in «Trabalhos do Olhar», 1976/82: T
Tentativas para um Regresso à Terra
, 1980
  

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