A Bilha

Alexander Archipenko, Seated Geometric Figure, 1950sAlexander Archipenko, Seated Geometric Figure

 

1

Bilha: forma que se casa
Com o meu coração,
A dar-me, simples, a asa,
Como um menino a mão!

 

Bilha que serve, na mesa,
e espera, sobre a tolha,
Que a gente sinta a beleza
de quem trabalha...
 


Bilha: donzela que dançou,
Dançou tanto de roda,
E na «pose» que me agrada,
De repente ficou!

 


2

 

Bilha só para ver...
Parece uma rapariga
Que ninguém quer,
A mostrar a barriga!

 


Bilha: mais bela por servir,
Por nem sempre conter,
por se poder
Partir...
 

 

Bilha que trabalha, que serve,
Que se enche e esvazia
Com a água e com a sede
De cada dia!

 

3

 

Serás, bilha, só a terna
Parede feminina
Entre o espaço que te cerca
E o espaço que te anima?

 

Mas da própria condição
de só deveres conter
Água para beber
Se forma o teu coração!


 in «A Mulher», (No Reino da Dinamarca.)
Antologia Poética coord. e Pref.da po Natália Correia
Lisboa: artemágica, 2005

Redacção


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fuchsphoto: DeviantART 

 

Uma senhora pediu-me
um poema de amor.

 

Não de amor por ela,
mas «de amor, de amor».

 

À parte aquelas
trivialidades «minha rosa, lua do meu céu interior»
que podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?

 

Sem objecto, o poema
é uma redacção
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.


 in «No Reino da Dinamarca» 
 

Índice de Poesias de Alexandre O'Neill Û

GAIVOTA

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© teamben: DeviantART

 

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

 

 

 

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

 

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

 

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

 

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

 

Que perfeito coração
no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração. 

 in, «Poesias Completas 1951-1986», 
Imprensa Nacional, Lisboa, 1990

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Sei os teus seios

Bert Christensen's CyberSpaceGallery: www.bertc.com
Yang Chun, Wild 

 

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

 

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

 

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

 

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

 

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

 

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

 

Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?

 

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

 

Quantos seios ficaram por amar?

 

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

 

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

 

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...

 

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

 

 

 

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

 

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

 

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

 

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"

 

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

 

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

 

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

 

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

 

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"

 

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.

 

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

 

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

 

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

 

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

 

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

 

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser 

Alexandre O'Neill  

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O AMOR É O AMOR (1960)

Alfred Gockel, Shades Of Love, Lavender 

  

O amor é o amor - e depois?
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

 

O meu peito contra o teu peito
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

 

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!

 

O amor é o amor - e depois? 

 

 Poesia de Alexandre O'Neill

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