BERNARDO PINTO DE ALMEIDA

 

BERNARDO PINTO DE ALMEIDA nasceu em 1954. É doutorado em História da Arte e da Cultura pela Universidade do Minho (1993).
É professor catedrático na Faculdade de Belas-Artes da Universidade do Porto.
Membro da AICA (Associação Internacional de Críticos de Arte), da Comissão Assessora do MEIAC — Museo Extremeño Iberoamericano de Arte Contemporáneo (Espanha) —cuja colecção de arte portuguesa organizou —, integrou a Comissão de Compras da Fundação de Serralves (1990-1996). Foi Director Artístico da Fundação Cupertino de Miranda em Vila Nova de Famalicão, onde fundou o Centro de Estudos do Surrealismo.
Tem colaborado com diversas publicações especializadas entre as quais Lapiz (Espanha), Contemporanea ou Artforum (EUA).
Prémio AICA/Gulbenkian de Crítica de Arte, em 1983.
Organizou, como comissário independente, cerca de três dezenas de exposições em diversas instituições.
Prefaciou mais de três centenas de catálogos de exposições de artes plásticas em Portugal e no estrangeiro.

 

Origem: Editorial Caminho

Tango

Bill Brauer, Tango Dancers Bill Brauer, Tango Dancers
 

 

O teu sexo na minha boca
é a flor que arde: a sua chama
explode táctil abre ruínas onde antes
cidades se erguiam habitadas.

 

Não tem medida a forma
com que as pernas
pontas abertas de uma estrela
se atiram no vazio deste quarto.

 

O teu sexo na minha boca
é um canto. Sonoros seus líquidos
abrem-me na língua um sulco fundo
que traz a luz que espasma na tua boca

 

noite a querer fechar-se lá por dentro.
Mas nem isso me aquieta
nem a sombra que cai nem esse grito
chegam para calar o meu desvairo.

 

O teu sexo na minha boca
é o meu sexo: o seu cheiro
acre que inundando
meu corpo o abre a todo o seu espanto.


 
in «Hotel Spleen», É Isto,
Lisboa: Quetzal, 2003

Corto Maltese

Anthony

 

Nada é perfeito como a tua noite
se outro sol nela se levanta
quota parte de treva que anuncia
a traço grosso o rosto claro instante.


Olhos febris a boca estremecendo
à simples sugestão da queimadura
movimento subtil age os quadris
do frémito possante que insinua.


Barco fundeado no horizonte
movimento do vento que se espanta
se acaso luz feroz evidencia
prata liquida de fuel flagrante.


A noite inunda-te. A lua espelha no mar sua moldura
pueril respiração do peito erguendo
zona de sombra onde tudo diz
que antes mesmo da nudez já estavas nua.

 

in «366 Poemas que Falam de Amor»
Antologia organizada por Vasco Graça Moura,
Lisboa: Quetzal, 2003

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