JORGE SOUSA BRAGA

 

Jorge Sousa Braga nasceu a 23 de Dezembro de 1957, em Cervães (Vila Verde). Exerce medicina no Porto.
Os seus cinco primeiros livros, publicados entre 1981 e 1987, foram reunidos num volume, "O poeta nu";  seguiu-se "Fogo Sobre Fogo", (1998);  "Herbário" (1999);  "Balas de Pólen",  (2001);   "A Ferida Aberta", (2001);  "Poemas com Asas",  (2001); "Pó de Estrelas", (2004);  "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo" ( 2004);  "Porto de Abrigo", (2005); "Animal Animal - Um Bestiário Poético", (2005); Reedição alargada de "O Poeta Nu" pela Assírio & Alvim, (2007).

Jorge Sousa Braga é ainda autor de traduções para português de obras de outros poetas, como Jorge Luís Borges, Leonard Cohen, Matsuo Bashô, Li Po e G. Apollinaire. Foi também o organizador de uma antologia intitulada "O vinho e as rosas" (1995).
 

Paixão

Dario Alves, Passo, 2005

Dario Alves, Passo

 


Podia escrever o teu nome num vidro embaciado ou
segredá-lo a uma borboleta negra.


Podia cortar os pulsos e deixar o sangue correr até que
o mar ficasse vermelho.


Ou beijar-te os pés. Mas esse gesto está reservado
desde o princípio dos séculos e teria o sabor de uma
profanação.

 

in «O Poeta Nu», 2ª Ed.
Lisboa: Fenda Edições, 1999

Carta de amor

Damião Vieira, Bang Bang Damião Vieira, Bang Bang

 

A Eugénio de Andrade

 

Um dia destes
vou-te matar
Uma manhã qualquer em que estejas (como de 
                                          costume)
a medir o tesão das flores
ali no Jardim de S. Lázaro
um tiro de pistola e...
Não te vou dar tempo sequer de me fixares o rosto
podes invocar Safo, Cavafy ou S. João da Cruz
todos os poetas celestiais
que ninguém te virá acudir
Comprometidos definitivamente os teus planos de
                                      eternidade
Adeus pois mares de Setembro e dunas de Fão
Um dia destes vou-te matar...
Uma certeira bala de pólen
mesmo sobre o coração

 

in «O Poeta Nu», 2ª Ed.
Lisboa: Fenda 1999

Diospiros

Antoni Guansé

 

 

"Há frutos que é preciso
acariciar
com os dedos com
a língua 


e só depois
muito depois 


se deixam morder"

  


 in «Balas de Pólen»
Quasi Edições, 2001

Escalada

 Antoni Guansé 

 

 

Chamar-te colibri sussurrar-te
Ao ouvido coisas ácidas e ternas
Morder-te no pescoço nos ombros nas nádegas
Sentir a humidade entre as tuas pernas


Selar-te as pálpebras com saliva
Enquanto gritas que me odeias e me amas
As minhas mãos numa roda viva
Entre as tuas nádegas e as tuas mamas


A minha língua a tua língua o meu
Pénis o teu clitóris a minha língua
O teu clitóris o meu pénis a tua língua


De joelhos como se implorasse
Enterrá-lo bem fundo entre as tuas pernas
Deixar que um raio nos trespasse

 

 

in «366 Poemas que Falam de Amor»,
Antologia organiz. Vasco de Graça Moura
Quetzal, 2003

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