VICTOR OLIVEIRA MATEUS

 

Victor Oliveira Mateus, é um escritor português, nascido em 1952, Lisboa. 
É licenciado em Filosofia pela Universidade Clássica de Lisboa, onde leccionou essa cadeira.
 Publicou as obras em poesia : “Nas águas a luz suspensa”, Lisboa, 1998. “Movimento de ninguém”, Lisboa, 1999. “A noite e a voz”, Universitária Ed., Lisboa, 2001. “Pelo deserto as minhas mãos”, Coisas de Ler Ed., Carcavelos, 2004 e, em prosa: “Quando voltares”, Coisas de Ler Ed., Carcavelos, 2002; traduziu “Fragmentos poéticos”, Safo, Coisas de Ler Ed., Carcavelos, 2002. “Os mais belos poemas”, S. João da Cruz, Coisas de Ler Ed., Carcavelos, 2002. 
No Dia Mundial da Poesia, 21 de Março, a editora Labririnto publicou a  sua obra em Poesia «A irresistível voz de Ionatos», para assim comemorar o evento, no ano de 2009. 
O autor dedica-se, hoje em dia,  exclusivamente à escrita. 
É membro da Associação Portuguesa de Escritores (A.P.E.) e do Conselho Geral da Revista Nova Águia e faz parte do Conselho Editorial da Editora Labirinto .

 

Sugestão de nEscritas:

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Nunca te pedi que ficasses

Guilherme de Faria, ALMA Welt No olho mágico,Tondo 2009, óleo s/ telaGuilherme de Faria, ALMA Welt No olho mágico
 

 


Nunca te pedi que ficasses. Nem que uma qualquer
dádiva fingisses na irremediável mobilidade dos afectos.
Nunca te pedi um qualquer excesso. Não daqueles
que na sua vagueação assumida se tornaram essência
do que essência já não tem, mas dos outros, dos que

 

me enchem por dentro, quando te encostas à janela
para fumar o último cigarro, quando sorrindo me apontas
o cabriolar dos gatos nos telhados em frente, quando
me olhas sem me conseguir ver: ávido que sou de
permanência no descuidado tumulto com que te fartas.

 

De mim a mim há um abismo onde nem sempre cabes.
Talvez em certas noites, naquelas em que a solidão aperta
e a dúvida me corrói, até te consiga sentir perto, mas sentir
perto não é ficar. Ficar é coisa que nem à palavra vem de
forma clara e nítida. É onda a trespassar-nos o corpo. Brilho

 

persistente na lenta preparação do último encontro. Nunca
te pedi que ficasses. Mas ainda acalentei a esperança
que por ti o decidisses. E assim, chegado o instante que
derradeiro sabemos ser, e sem que alguém o visse, e sem
que alguém sequer o suspeitasse, a alma me arrancarias
para que eu forçosamente voltasse em novo re-canto de nós.

 


In «A Irresistível Voz de Ionatos», Posf. de Cláudio Neves 
e texto da contracapa de Olga Savary,
Fafe: Editora Labirinto, 2009
 

querer-te é sentar-me na praça

André Brasilier

 

 

Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã, só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice, as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde das acácias e das
palmeiras e as rosas de Jericó alinhadas até à ponta das dunas
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa , as tâmaras, a voz
da grande Kolthoum vinda de uma janela num cântico apaixonado
ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é o teu corpo nu,
exausto, branco como um templo, porque todos os corpos são um
templo no solo consagrado que há
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil e dançante
caminhar das mulheres, a fonte, as águas
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer

 

 

in «Os Dias do Amor», por Inês Ramos
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