RAQUEL LACERDA (n. 1987)

Raquel Lacerda 

Raquel Teixeira da Fonseca de Lacerda, nascida em Lisboa, a 11 de Outubro de 1987, viu um poema seu publicado pela primeira vez em 2009, na Antologia “Os dias do Amor”. A mais nova de cinco irmãs, tem como autores de referência Sophia de Mello Breyner, na poesia, e o húngaro Sándor Márai na prosa.
Licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais, a terminar o Mestrado em Estratégia, mostra-nos que a sensibilidade da poesia se pode conciliar com outras áreas bem diferentes, embora tenha tido oportunidade de frequentar disciplinas da Licenciatura de Estudos Portugueses.
A paixão pela escrita surgiu por volta dos quinze anos, altura em que completou o primeiro workshop de escrita criativa e conheceu autores como Beckett, e Gabriela Llansol.
Um dos temas recorrentes na sua escrita é o seu Pai, que perdeu aos 2 anos de idade.

 

Biografia enviada pela Autora

 

 Sugestão de nEscritas:

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Tens flores dentro da pele

Minucha, Contraste Minucha, Contraste
 

 

Tens flores dentro da pele
daquelas que se transforam em pétalas
no teu cabelo feito de vento
num dia quente. 
 

Tens asas dentro dos olhos
com eles vês por detrás do céu
aquele onde te deitas
quando precisas de repousar.
 

Tens mãos feitas de terra
terra pura que contigo levas
e que deitas inocentemente
no canteiro dos corações.
 

Tens letras desenhadas nos pulsos
poemas que escreveste com os lábios
de todas as vezes que amaste
sem amar, amando sempre.
 

Tens a cor verde a pulsar nos ombros
onde carregas, porque és fortaleza feita de areia,
a vida toda que tens para te dar. 
 

Raquel Lacerda

do blog da autora:  Asinhas de Frango

Foi com o tempo

Claudio Bravopintura de  Claudio Bravo

 


 
Foi com o tempo que te aprendi,
aprendi-te dentro de mim,
fora das horas e pensamentos,
sem olhar para relógios, apenas momentos.
Foi com o tempo que te escutei,
palavras secretas sem nexo,
jogo de medos e de reflexos,
sem nunca duvidar, de ouvidos perplexos.
Sabes, foi com o tempo que te cresci,
eu a crescer fora de mim,
sem dares por nada, como finges ser costume,
eu sozinha, a aquecer o teu amor, ao lume.
Foi com o tempo que te temi,
tremiam árvores da floresta com o vento,
não havia futuro nem nomes, somente o tempo,
e foi com ele que me entreti.
Foi com o tempo que te aperfeiçoei,
aperfeiçoei-me a mim também,
como por magia ou talvez como ao escrever,
em que nunca se deve insistir se a palavra prefere morrer.
Sabes, foi com o tempo que gostei.
Gostar do sorriso e da melancolia,
dessa doce mistura que me atrevia,
a por fim dizer-te baixinho, que contigo me via.
Tempo é palavra sem nome,
é sopro soprado sem fôlego,
é guardar dentro de nós o que há de mais puro,
é fugir e correr para ele, esperando não bater no muro.

 

Retirado do blog da Autora Asinhas de Frango

amanhã

JOAN MARTI ARAGONES, Bruna descansant Joan Marti Aragones, Bruna descansant

 

 


amanhã meu amor,


amanhã faço poemas com os teus dedos donde nascem flores,
amanhã escrevo-te cartas com os lábios a tremer de frio,
amanhã adormeço desperta no canto mais canto que houver da tua voz,


amanhã meu amor,
verei todas as folhas amarelas que nascem do chão e regressam aos ramos
                                                                                   [dos teus braços,
amanhã vou dançar no silêncio proibido que te cala,
amanhã fecho os olhos e finjo que estou acordada
para que me toques as pálpebras com a respiração ofegante de quem cega,


amanhã meu amor,
abro as janelas do peito onde nascem estrelas sem céu,
abro a cama e procuro-te debaixo dela,
dou-te a mão para me encontrares no mapa da pele dolorida,
para que me encontres talvez no mesmo sítio de sempre onde nunca foste,


amanhã meu amor,
dedico-te o vento que roça as estátuas já esverdeadas da tua cidade,
faço-te promessas de palavras que não existem,
desafio-te para um duelo de um só combatente,
deixo-te sozinho comigo encostada aos teus ombros de lava,


amanhã meu amor,
vou cantar canções na rádio da frequência 0.00,
vou atirar-te areia com os pés no meio de lugar nenhum,
devolvo-te as minhas ideias que nunca ouviste porque não sei dizê-las com
                                                                                   [boca nem mão,


amanhã meu amor,
vou gostar de ti como se fosses uma manga doce,
vou ter medo das paredes intactas do teu ser,
vou gritar às raízes das árvores por não as ser   ,
vou girar à volta do mundo sem sequer o saber,


amanhã meu amor,
vou desenhar a lápis de cera como as crianças,
dar-te um desenho de que me vou esquecer,
amadurecer à tua espera, à espera de me ver em ti,


amanhã meu amor,
vou fazer malabarismo com o tempo,
desprender-te da liberdade, da minha liberdade,
acongechar-te à noite sem saberes,


só porque amanhã meu amor,
amanhã,
vou continuar a gostar de Ti.


in «Os dias do Amor»,
ver Ref.s em Livro de Apoio 

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